Recém-saído de um mergulho em Notas de Manfredo Rangel, repórter, obra que foi tema de minha dissertação de mestrado, achei que ficaria um bom tempo sem ler nada de Sérgio Sant'Anna, até me recuperar. Mas não resisti à curiosidade e hoje devorei O vôo da madrugada, que, consta-me, é seu livro mais recente.
Muito bem arranjado e com grandes sacadas sobre o comportamento humano, o livro traz algumas recorrências temáticas do autor trabalhadas de forma ainda mais provocativa. A questão da atuação da imprensa, chave para compreensão do conto "O monstro" no livro homônimo, reaparece com mais amplitude em "Gorila" e nos contos que o sucedem na segunda parte do livro. Uma certa tendência perspectivista e experimental de composição, característica de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, é retomada no recurso de oferecer diferentes possibilidades de desfecho para alguns dos enredos do livro. A preocupação com a arte, notadamente com a pintura, presente, por exemplo, no conto "Cenários", de O concerto de João Gilberto..., reaparece nos contos da última parte do livro. Até mesmo uma certa preocupação metalinguística com o processo da escrita - que remete a "Conto, não conto" de A senhorita simpson - ganha destaque em vários dos textos, que adotam um processo de reflexão sobre uma escrita ainda não efetivada.
Todos esses elementos recorrentes da obra do autor são retrabalhados de forma inovadora em O vôo da madrugada, que não se caracteriza por ser uma reedição de idéias já buriladas. Uma série de aspectos novos soma-se às constantes literárias de Sérgio para compor um quadro ainda mais envolvente da condição do indivíduo nos tempos atuais. Os contos da segunda parte do livro, por exemplo, trazem o trote telefônico como tema, mas apontam para uma reflexão sobre a solidão e a necessidade de trocar de identidade, questões da ordem do dia na era da internet. A violência urbana e a sua relação com certa parcela da alma dos indivíduos também aparece no conto em que Teresa faz suas confissões ao analista. A necessidade de congelar o tempo, a percepção da solidão, o sentimento de envelhecimento, todas essas preocupações da vida contemporânea são tangenciadas pelo texto perspicaz, irônico e algo mordaz do autor.
Um último aspecto merece destaque na obra: o diálogo literário e referencial entre os diferentes contos, estabelecendo uma sensação de continuidade e reiteração nos temas, mas, ao mesmo tempo, de insistência no angustiante vazio do devir humano. Imperdível.