segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mente e cérebro - Emoções: Alegria, de Daniel Kupermann e Ramon Souza




Interessante introdução ao tema, servindo também como introdução à coleção que trata das emoções humanas. Os autores apresentam a alegria como um sentimento a ser reprimido dentro da lógica do trabalho, da racionalidade e do esforço intelectual, mas ao mesmo tempo como a grande força propulsora das ações humanas. Há referências a Freud, Lacan, Nietszche, e interpretações muito interessantes da fábula da cigarra e da formiga. Particularmente, gostei dos trechos que fazem referência às crianças e à capacidade que têm de satisfações espontâneas e efêmeras. A parte final me fez pensar que, se a alegria se opõe ao medo, como o livro preconiza, o maior impedimento à alegria também é o maior impedimento à tristeza, que é a restrição ao prazer espontâneo pela sensação de perda do controle (o medo, justamente), e aqui estou considerando que a tristeza não é necessariamente um desprazer, vide a predileção de muitas pessoas por eventos artísticos dramáticos, sentimentais, tristes etc.
O melhor trecho do livro, para mim, é aquele que nos diz, sobre a alegria, que 

a cultura ocidental restringiu muito seu alcance. Desde o advento da modernidade, se não antes, a alegria passou a ser vista com grande suspeição. Em nome da sensatez ditada pela adoção da Razão e de seus produtos maiores - a ciência, a tecnologia, o trabalho e evidentemente o lucro que os acompanha - como bússolas norteadoras das ações humanas, passou-se a olhar com reserva a desmesura e o poder inebriante desta que é a mais contagiante das emoções. Como se a alegria devesse ser tanto mais temida quanto mais afasta o homem da retidão controlada e do cálculo que, por meio do adiamento das satisfações do corpo e da alma, promete recompensas futuras. Com o agravante de que a sua irresistível propagação pode adquirir proporções inimagináveis.

A leitura desse trecho por um artista merece, no mínimo, um largo sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estimar canções - Luiz Tatit




Passados já agora mais de 15 meses de minha defesa de doutorado, comprei este livro do meu orientador, o professor Luiz Tatit, maior semioticista da canção no país. A experiência de leitura foi surpreendente. Embora os textos de semiótica sejam complicados para a leitura do público em geral e muitas vezes exigentes com os próprios estudantes da área, posso atestar que li o livro todo em dois dias, de uma vez, sem grandes problemas. É verdade que muitas das questões que ficaram pendentes das discussões da minha defesa foram aclaradas nessa obra, com explicações eficazes e exemplos precisos. Mas também é verdade que as ideias centrais da pesquisa do Tatit estão organizadas de forma muito clara nesse livro, o que fez com que a leitura fluísse mesmo nos pontos não tão imediatamente ligados à minha pesquisa.
A ideia de estimar canções, com os dois significados do verbo, é simplesmente brilhante. Não creio que nenhum estudioso da semiótica da canção pense em criar uma forma puramente científica de avaliar o material dessa linguagem. Por outro lado, todos os semioticistas da canção têm interesse em saber como as emoções que tornam as canções tão lindas são produzidas com a dosagem dos recursos oferecidos pela música, pela palavra e pela voz. O título do livro foi muito bem sacado.
Alguns dos capítulos reorganizam ideias que apareceram em artigos do Tatit que eu já havia lido. Mas a unidade do livro transformou minha percepções iniciais dessas ideias e elucidou várias questões que ainda me incomodavam. Creio que o modelo tensivo de maximização, minimização, recrudescimento e atenuação encaixou muito bem com os modos de compatibilidade melodia/letra. A questão da figurativização, que defendi na minha tese como aspecto central e basilar da produção de Adoniran Barbosa, foi retomada de forma muito mais clara, principalmente no último capítulo, despertando em mim uma tremenda vontade de voltar no tempo e reescrever a parte introdutória de meu texto. Vi também que, se nas obras anteriores Tatit centrou seus esforços de análise em canções nacionais, neste livro apareceram trechos de canções dos Beatles, dando a entender que as conquistas teóricas relacionadas às canções brasileiras podem ser estendidas à produção cancional midiática de boa parte do mundo, coisa que sempre pensei, mas que não tinha convicção intelectual de afirmar.
Mas o mais interessante de "Estimar canções", para além de todos esses méritos teóricos que apontei, é ser um livro leve, acessível, perfeitamente inteligível para os que não têm conhecimento aprofundado de semiótica. Parece-me até mais leve que "Elos de melodia e letra", que até então seria, em minha opinião, a obra referencial para uma primeira aproximação do tema.
A leitura de "Estimar canções" significou muito para mim, por meu interesse em semiótica, mas creio que possa interessar da mesma forma a qualquer amante ou estudioso da canção.
Muito bom.