Passados já agora mais de 15 meses de minha defesa de doutorado, comprei este livro do meu orientador, o professor Luiz Tatit, maior semioticista da canção no país. A experiência de leitura foi surpreendente. Embora os textos de semiótica sejam complicados para a leitura do público em geral e muitas vezes exigentes com os próprios estudantes da área, posso atestar que li o livro todo em dois dias, de uma vez, sem grandes problemas. É verdade que muitas das questões que ficaram pendentes das discussões da minha defesa foram aclaradas nessa obra, com explicações eficazes e exemplos precisos. Mas também é verdade que as ideias centrais da pesquisa do Tatit estão organizadas de forma muito clara nesse livro, o que fez com que a leitura fluísse mesmo nos pontos não tão imediatamente ligados à minha pesquisa.
A ideia de estimar canções, com os dois significados do verbo, é simplesmente brilhante. Não creio que nenhum estudioso da semiótica da canção pense em criar uma forma puramente científica de avaliar o material dessa linguagem. Por outro lado, todos os semioticistas da canção têm interesse em saber como as emoções que tornam as canções tão lindas são produzidas com a dosagem dos recursos oferecidos pela música, pela palavra e pela voz. O título do livro foi muito bem sacado.
Alguns dos capítulos reorganizam ideias que apareceram em artigos do Tatit que eu já havia lido. Mas a unidade do livro transformou minha percepções iniciais dessas ideias e elucidou várias questões que ainda me incomodavam. Creio que o modelo tensivo de maximização, minimização, recrudescimento e atenuação encaixou muito bem com os modos de compatibilidade melodia/letra. A questão da figurativização, que defendi na minha tese como aspecto central e basilar da produção de Adoniran Barbosa, foi retomada de forma muito mais clara, principalmente no último capítulo, despertando em mim uma tremenda vontade de voltar no tempo e reescrever a parte introdutória de meu texto. Vi também que, se nas obras anteriores Tatit centrou seus esforços de análise em canções nacionais, neste livro apareceram trechos de canções dos Beatles, dando a entender que as conquistas teóricas relacionadas às canções brasileiras podem ser estendidas à produção cancional midiática de boa parte do mundo, coisa que sempre pensei, mas que não tinha convicção intelectual de afirmar.
Mas o mais interessante de "Estimar canções", para além de todos esses méritos teóricos que apontei, é ser um livro leve, acessível, perfeitamente inteligível para os que não têm conhecimento aprofundado de semiótica. Parece-me até mais leve que "Elos de melodia e letra", que até então seria, em minha opinião, a obra referencial para uma primeira aproximação do tema.
A leitura de "Estimar canções" significou muito para mim, por meu interesse em semiótica, mas creio que possa interessar da mesma forma a qualquer amante ou estudioso da canção.
Muito bom.

Nenhum comentário:
Postar um comentário