Lamento ter de revelar que até os meus 43 anos de idade ainda não havia lido esse livro belo e precioso. Mas admito que foi bom fazer isso já mais maduro, porque acredito que esse é um daqueles livros infantis que não são exatamente infantis. A sensibilidade mostrada pelo autor passa por uma maturação de sentimentos e experiências, por um sentido de vida e de descoberta que nós só conseguimos vislumbrar ou pensar sobre ele quando nos deixou de ser natural.
Não há nada na história que justifique o encadeamento lógico da partes, a não ser a fina percepção poética de Exupéry e sua doçura de redação. Se fizéssemos uma síntese narrativa do texto, perderíamos exatamente tudo. A força e a beleza estão no encadeamento de cada frase, na surpresa das reações, nas excelentes metáforas e comparações. Talvez se possa pensar em um conjunto de parábolas sobre o comportamento adulto, mas essa também seria uma redução injusta. O acendedor de lampião, por exemplo, não é uma parábola sobre o cumprimento de regulamentos. Ele é uma sátira explícita dos exageros desse modo de agir. O desenho da jiboia engolindo um elefantes não é uma metáfora da percepção diferenciada da criança; ele é praticamente um exemplo disso.
Eu tenho medo de ler a parte da raposa e desabar nas lágrimas. É uma das passagens mais edificantes que já conheci, e a melhor forma de se dizer o que é alguém que se importa.
Esse é um daqueles livros que reforça a ideia de que o texto literário não é passível de simplificações. Você precisa beber da poesia da escrita para entender o sabor da mensagem.
Lindo e tocante.

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