domingo, 8 de abril de 2018

Macunaíma, de Mário de Andrade




Apesar da necessidade profissional de apresentar uma abordagem mais esquemática e didatizada de "Macunaíma", tentei me conceder a possibilidade de uma aproximação um tanto quanto livre da obra-prima de Mário de Andrade. Fiz, então, uma leitura corrida, solta, menos impressionada com as referências. Não funcionou muito, na verdade. Trata-se de um texto que costura uma variedade ampla de elementos, com passagens muito ágeis em matéria de ação e grande concentração de dados na superfície da escrita. Quando a leitura é mais desprendida, acredito que o efeito imediato é dar risada, porque há pelo menos uma sacada, uma brincadeira, uma mudança de tom a cada dez ou vinte linhas. 
De um ponto de vista mais avaliativos e crítico, o que considero incrível é o quanto de Brasil tem nesse livro, e como ele, que encaro como uma fantástica peça de provocação, consegue aproveitar elementos da brasilidade, até elementos estereotípicos, sem produzir, ao fim, algo que se possa chamar de estereótipo. Mesmo reforçando continuamente os caracteres de "herói sem caráter" do protagonista, Mário não narra de forma condescendente nem judiciante, e amplia a construção do personagem com qualificações díspares e oscilações de postura. No grande Carnaval de valores e disposições de espírito apresentados na obra, a organização do autor implícito revela uma disposição para o poético, o mítico e o onírico, e a liga de tudo é o tom não elevado, que remete ao humorístico e perpassa todo o texto como que brincando com as referências e informações recolhidas. Durante a leitura, é divertido perceber como a oralidade e as tradições de falas e ditos que conhecemos podem aparecer de repente e deslavadamente em trechos de viradas do enredo. O uso de linguagem desse livro pode ser considerado, sem dúvida, como um dos mais elaborados e ricos da nossa língua.
No entanto, considero dificílimo aproveitar a obra sem pelo menos alguns níveis de pesquisa: 1) vocabulário, riquíssimo, com muitos termos indígenas e estrangeirismos; 2) referências históricas, diversas e espalhadas pelo texto, algumas das quais não tão evidentes para um leitor sem tanto repertório; 3) elementos folclóricos, extraídos de várias fontes e reinventados com grande liberdade e respeito (isso parece contraditório, mas não é) pela inteligência do autor.
Leva tempo e demanda esforço considerável, mas "Macunaíma" entrega o que a crítica diz que ele promete. Até mais.
Por fim: o "Roteiro de Macunaíma", de Cavacanti Proença, é um guia útil para uma iniciação ao universo do livro. Deve ser lido paralelamente aos capítulos.

domingo, 1 de abril de 2018

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo. 
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.