domingo, 1 de abril de 2018

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo. 
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.

Um comentário:

Unknown disse...

"Por que bonita se coxa, por que coxa se bonita?"