Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo.
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.

Um comentário:
"Por que bonita se coxa, por que coxa se bonita?"
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