Não tive a oportunidade de ver uma encenação desta peça tão clássica e importante. Tive, pelo menos, o contato mínimo com o texto para reconhecer-lhe a força. E creio que boa parte de minha diversão com as sacadas de Oswald está naquilo que tenho de paulistano incrustado na personalidade.
Se alguém retirasse alguns trechos da peça e mostrasse às pessoas sem citar a fonte ou a data, muitas delas se ofenderiam ainda hoje. Essa acidez ficou preservada porque o que Oswald criticava nos idos dos anos 1930 não mudou em essência na mentalidade de grande parcela dos que se pensam "geradores de emprego" e "movimentadores da economia". É muito engraçado para mim ver os dois Abelardos discutindo sobre sangue nobre, e dizendo que São Paulo tem dez famílias, sendo o resto prole. É quase como a gente olhando a extensão das periferias e o isolamento dos bairros nobres e bunkers, e relacionando as duas coisas com alguma justificativa baseada em mérito, esforço ou diferença de aptidão. A posição de subserviência e admiração infundada em relação aos Estados Unidos também me parece muito paulista, até paulistana mesmo. Oswald era filho de uma elite que conhecia bem a ponto de poder revirar sua sujeira sob o tapete. A verve crítica impiedosa do autor faz muita falta nos dias atuais, nos quais até os mais independentes morrem de medo de perderem o nada que nem têm.
Mas é preciso atualizar o cenário para uma eventual remontagem, mantendo a substância do texto, que é excelente. Aguardarei, porque gosto de teatro no teatro, ainda que usufrua bem do gosto do texto no papel.
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