Talvez pese sobre esse romance de Machado a ideia um tanto ingrata de que seria incorporável ao rol do Romantismo brasileiro. Sendo Machado o maior de nossos prosadores realistas, a obra soaria como um "porém" entre suas grandes produções.
Acredito que em "A mão e a luva" devamos nos conduzir pelas próprias observações do autor sobre seu texto. Em nota introdutória, Machado chamava a atenção para a construção das personagens, em especial da personagem feminina Guiomar, e dizia que esta era a razão de ser do romance.
Uma leitura sem preconceitos e curiosa do livro aponta para méritos que ultrapassam a questão da classificação. De fato, a Guiomar de "A mão e a luva" é uma personagem bonita, cheia de artimanhas, equilibrando-se entre a postura de altivez e impassibilidade e as vulnerabilidades de um coração ambicioso e sedento de paixão. Diante disso, Luís Alves e Estêvão são tipos mais rasos, e o segundo é quase uma caricatura dos moços românticos desesperados e melodramáticos.
Entre uma e outra cena do triângulo amoroso, está presente e atento o Machado observador dos costumes, com sacadas filosóficas e chistes sobre a juventude, o amor e os valores sociais. Como a narração não se acopla em definitivo ao ponto de vista das personagens, a não ser na fala final de Luís Alves a Estêvão, o narrador parece um senhor mais velho, ajuizado e experiente, comentando as idas e vindas do jogo de seduções entre Guiomar e pretendentes.
Como leitura de apoio, recomendo o artigo de Rodrigo Silva Trindade, A figura inglesa na ordem escravocrata brasileira: um estudo sobre a personagem Mrs. Oswald em A mão e a luva, de Machado de Assis, para se compreender melhor a parte mais densa do enredo, que é a relação entre baronesa, Guiomar e a governanta. Só jogar no Google que você acha.
De resto, não subestime Machado nem nos seus livros menos badalados. Eles têm muito a dizer.

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