Tendo terminado a leitura da obra de Geneviève Patte, posso apontar algumas qualidades muito evidentes e dizer sinteticamente de que maneira o livro tocou em minha experiência de educador.
O otimismo, a intensidade, a esperança e a convicção positiva da autora em relação às experiências que relata conquistam da primeira à última página. Trata-se de um texto pulsante, cheio de vida, realmente inspirador e estimulador. Há uma forte crença na singularidade da experiência da Biblioteca Viva, nos moldes humanizados e dialógicos com os quais é concebida, e uma aposta permanente no contato das crianças com os bons livros.
Não se trata, de forma alguma, de um otimismo ingênuo ou uma fé fanatizante. Pelo contrário, o conhecimento que sustenta a argumentação da autora foi construído em suas inúmeras viagens e pesquisas em experiências de biblioteca e circulação de livros pelo mundo todo. Patte efetivamente teve contato com uma gama considerável de realidades distintas e, em cada uma dessas realidades, com esforços similares aos seus para fornecer experiências de leitura às crianças e suas famílias. E teve especial carinho e atenção com os trabalhos bem sucedidos em comunidades afastadas, carentes, depauperadas, excluídas. Embasada no que viu e viveu, a autora consegue identificar características benéficas para a divulgação de literatura de qualidade.
Além disso, Patte conhece literatura de qualidade, porque possui repertório de leitura. Nesta obra em particular, perde-se a conta de quantos livros e autores são referenciados e sugeridos. Verdade que a maior parte da bibliografia está em francês, mas isso não nos impede de pensar que qualquer ação relacionada à literatura para crianças envolve a leitura e seleção prévia do melhor material. Esse é um pressuposto que muitas vezes não se prestigia na formação do bibliotecário, e, por que não dizer, do mediador de leitura em geral. A idealizadora da Biblioteca Viva de Clamart deixa, entretanto, muito clara a sua proposta: você será capaz de estimular se, por seu lado, também estiver genuinamente estimulado pelo material que oferece.
Importante ainda ressaltar que, em "Deixem que leiam", procura-se considerar, ao lado da biblioteca, a perspectiva da vida digital de inúmeras crianças. Esse novo mundo de infinitas possibilidades de informação, segundo Patte, não excluiria a especificidade da experiência da biblioteca, porque os bibliotecários/mediadores de leitura seriam capazes de integrar as necessidades das crianças "nativas digitais" ao modo de organização e acesso desses espaços. E isso se daria exatamente pelo aspecto da intervenção adulta, humana, atenta e interessada.
A leitura desse livro trouxe várias inquietações pessoais, e uma enorme vontade de construir a experimentos de circulação de livros em alguns locais que tenho agora em mente. Essa chama que o livro voltou a acender em mim associa-se ao tempo de professor de Ensino Fundamental na Prefeitura de São Paulo, quando trabalhei como Orientador de Sala de Leitura. Muitas das percepções de Patte vão ao encontro dos meus sentimentos nas descobertas cotidianas advindas da observação do comportamento infantil. Existe um aspecto pedagógico na Sala de Leitura, que é, por princípio, uma aula dentro de um horário de aula, exigindo uma programação, alguma atividade, um plano. Mas existe sempre, dentro da Biblioteca, mesmo que seja a Biblioteca escolar e o cronograma rígido da instituição, o aspecto da transgressão, da escolha do livro que o professor não mostrou, da liberdade para fuçar, da tranquilidade para realizar a leitura pessoal e intransferível (e que muitas vezes não pode nem deve ser traduzida em atividade avaliativa). Mais do que a experiência de professor, fala em mim, talvez, a experiência de menino sonhador, que queria que o tempo parasse para poder brincar de explorar bibliotecas e estantes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário