segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Leitura Literária na Escola, organizado por Renata Junqueira de Souza e Berta Lúcia Tagliari Feba





Editado pelo Mercado das Letras, o livro "Leitura Literária na Escola" é uma compilação de contribuições de vários autores sobre possibilidades de exploração de material literário em sala de aula. A concepção sobre a especificidade do literário é abrangente, permitindo a inclusão de obras ilustradas, ou graficamente fundamentadas em seu texto, ou mesmo de adaptações de obras clássicas. A esse ponto positivo, alia-se a opção por priorizar, em cada capítulo, um tipo específico de material, ora pelo gênero (fábulas, contos de fadas), ora pela extensão (narrativas curtas), ora pela linguagem (quadrinhos). Essa variedade proporciona textos sobre temas pouco explorados, como os livros de imagens e os livros-brinquedo. 
Voltada para o professor de educação infantil e fundamental, e uniformizada pela presença, em todos os capítulos, de pelo menos um plano de aulas ou sequência didática, a obra coletiva indica perspectivas múltiplas e plurais de abordagem do material literário em aulas de Português. É possível perceber, dentro desse objetivo geral, que as atividades propostas tem embasamento didático-pedagógico semelhante, e que guardam diversos traços pedagógicos comuns, como a importância da pré-leitura e dos momentos de debate coletivo sobre o texto. Houve, adicionalmente, preocupação em dialogar com as recomendações governamentais sobre o tema e as legislações a ele pertinentes, que orientam (ou intentam orientar) os trabalhos dos professores no cotidiano das instituições. 
A uniformidade pedagógica das propostas de atividade é um aspecto interessante nesse livro. Remete à ideia de que seja possível, no limite, aplicar metodologia similar adequada a diversas manifestações distintas do literário, independente do conteúdo da obra, do seu formato, do enraizamento cultural-histórico e das especificidades dos gêneros e suportes estudados. Outras investigações, partindo dessa premissa inferida, podem, futuramente, considerando a similaridade das intervenções (calcada em um conhecimento pedagógico comum), estudar as diferenças oriundas das particularidades de cada material (perguntar, por exemplo, como uma etapa de visualização e inferência pode suscitar orientações específicas em um romance, em um conto de fadas ou em um poema de cordel). Encaminhar as reflexões para o aproveitamento das propriedades literárias das obras é um objetivo citado em muitos capítulos do livro, e poderia ser mais explorado em trabalhos posteriores. Implicaria questionar sobre o que há, por exemplo, na fábula, que pode ser aproveitado na mediação didática para apresentá-la de maneira mais próxima de sua função literária e estética, ou seja, que possa valorizá-la enquanto fábula. Talvez isso equivalha a pensar menos como um professor de Português e mais como um professor de Artes, mas não deixa de ser um desafio instigante, dado que o desinteresse por livros é problema tão grave para nossa educação quanto a defasagem no domínio das estruturas da língua.

sábado, 17 de junho de 2017

Como treinar seu o dragão, de Cressida Cowell





Como treinar o seu dragão
Cressida Cowell (também ilustrações)
Tradução de Heloisa Prieto
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

O livro de Cressida Cowell possui características metalinguísticas interessantes, dispostas de maneira a valorizá-lo e a valorizar hábitos e modos de leitura. Essas características são possíveis porque o enredo, as ilustrações e a disposição gráfica dos elementos dialogam entre si, criando um sentido para o livro enquanto livro, mais que para a história enquanto parte do livro.
Em meio à batalha de Soluço para conseguir status dentro do universo viking, há a necessidade de consulta a bibliografia especializada sobre domesticação de dragões. A narrativa faz, então, referência a um livro, mas sem descrevê-lo. A capa, contracapa, a ficha de empréstimo na biblioteca, o conteúdo e a quarta capa do livro ficcional são apresentados como símiles nas páginas do livro real. Esse recurso traz para o enredo o próprio encanto do contato físico com a obra e da busca de informação e entretenimento inerente a esse contato. Essa é uma sacada realmente valiosa para obras de literatura juvenil, e é reforçada por outros momentos em que referências a práticas escritas aproveitam-se da situação intermediária entre ilustração e texto: o livro traz ainda boxes explicativos, anotações de cadernetas e até uma carta mal-educada, mas construída dentro das convenções do gênero; tudo isso é apresentado como cópia da estrutura material do portador de texto.
Outros aspectos que tornam a obra de Cowell agradável para as gerações mais novas são o manejo das fontes gráficas e as escolhas de comparativos para as descrições realizadas. No primeiro caso, é interessante notar que há farta presença de grafia em maiúsculas, em grande parte para distinguir trechos falados de gritados, sedimentando a demarcação da oralidade em uso e reforçando aspectos oratórios importantes para o enredo. Também deve ser notada a diferenciação gráfica (apenas gráfica) entre a língua da narração e a língua dos dragões. No segundo caso, nota-se um esforço de trazer para a obra ficcionalmente escrita em período viking referências atuais e próximas do leitor, de maneira a proceder a identificação, e sem grande preocupação com a verossimilhança da pseudoautoria, já em si uma brincadeira da própria autora. É o que acontece, por exemplo, quando a palavra nerd descreve alguns dos meninos vikings mais introspectivos e estudiosos.
Essas propriedades da obra podem não ser a razão de seu sucesso comercial, mas agregam valor ao livro, mais que à narrativa, como experiência interessante do ponto de vista editorial. O enredo, em si, é bem próximo dos topos do gênero, mas o tratamento simpático, alegre, divertido e espertamente autoirônico garante o prazer da leitura para a garotada.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry




Lamento ter de revelar que até os meus 43 anos de idade ainda não havia lido esse livro belo e precioso. Mas admito que foi bom fazer isso já mais maduro, porque acredito que esse é um daqueles livros infantis que não são exatamente infantis. A sensibilidade mostrada pelo autor passa por uma maturação de sentimentos e experiências, por um sentido de vida e de descoberta que nós só conseguimos vislumbrar ou pensar sobre ele quando nos deixou de ser natural. 
Não há nada na história que justifique o encadeamento lógico da partes, a não ser a fina percepção poética de Exupéry e sua doçura de redação. Se fizéssemos uma síntese narrativa do texto, perderíamos exatamente tudo. A força e a beleza estão no encadeamento de cada frase, na surpresa das reações, nas excelentes metáforas e comparações. Talvez se possa pensar em um conjunto de parábolas sobre o comportamento adulto, mas essa também seria uma redução injusta. O acendedor de lampião, por exemplo, não é uma parábola sobre o cumprimento de regulamentos. Ele é uma sátira explícita dos exageros desse modo de agir. O desenho da jiboia engolindo um elefantes não é uma metáfora da percepção diferenciada da criança; ele é praticamente um exemplo disso.
Eu tenho medo de ler a parte da raposa e desabar nas lágrimas. É uma das passagens mais edificantes que já conheci, e a melhor forma de se dizer o que é alguém que se importa.
Esse é um daqueles livros que reforça a ideia de que o texto literário não é passível de simplificações. Você precisa beber da poesia da escrita para entender o sabor da mensagem.
Lindo e tocante.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mente e cérebro - Emoções: Alegria, de Daniel Kupermann e Ramon Souza




Interessante introdução ao tema, servindo também como introdução à coleção que trata das emoções humanas. Os autores apresentam a alegria como um sentimento a ser reprimido dentro da lógica do trabalho, da racionalidade e do esforço intelectual, mas ao mesmo tempo como a grande força propulsora das ações humanas. Há referências a Freud, Lacan, Nietszche, e interpretações muito interessantes da fábula da cigarra e da formiga. Particularmente, gostei dos trechos que fazem referência às crianças e à capacidade que têm de satisfações espontâneas e efêmeras. A parte final me fez pensar que, se a alegria se opõe ao medo, como o livro preconiza, o maior impedimento à alegria também é o maior impedimento à tristeza, que é a restrição ao prazer espontâneo pela sensação de perda do controle (o medo, justamente), e aqui estou considerando que a tristeza não é necessariamente um desprazer, vide a predileção de muitas pessoas por eventos artísticos dramáticos, sentimentais, tristes etc.
O melhor trecho do livro, para mim, é aquele que nos diz, sobre a alegria, que 

a cultura ocidental restringiu muito seu alcance. Desde o advento da modernidade, se não antes, a alegria passou a ser vista com grande suspeição. Em nome da sensatez ditada pela adoção da Razão e de seus produtos maiores - a ciência, a tecnologia, o trabalho e evidentemente o lucro que os acompanha - como bússolas norteadoras das ações humanas, passou-se a olhar com reserva a desmesura e o poder inebriante desta que é a mais contagiante das emoções. Como se a alegria devesse ser tanto mais temida quanto mais afasta o homem da retidão controlada e do cálculo que, por meio do adiamento das satisfações do corpo e da alma, promete recompensas futuras. Com o agravante de que a sua irresistível propagação pode adquirir proporções inimagináveis.

A leitura desse trecho por um artista merece, no mínimo, um largo sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estimar canções - Luiz Tatit




Passados já agora mais de 15 meses de minha defesa de doutorado, comprei este livro do meu orientador, o professor Luiz Tatit, maior semioticista da canção no país. A experiência de leitura foi surpreendente. Embora os textos de semiótica sejam complicados para a leitura do público em geral e muitas vezes exigentes com os próprios estudantes da área, posso atestar que li o livro todo em dois dias, de uma vez, sem grandes problemas. É verdade que muitas das questões que ficaram pendentes das discussões da minha defesa foram aclaradas nessa obra, com explicações eficazes e exemplos precisos. Mas também é verdade que as ideias centrais da pesquisa do Tatit estão organizadas de forma muito clara nesse livro, o que fez com que a leitura fluísse mesmo nos pontos não tão imediatamente ligados à minha pesquisa.
A ideia de estimar canções, com os dois significados do verbo, é simplesmente brilhante. Não creio que nenhum estudioso da semiótica da canção pense em criar uma forma puramente científica de avaliar o material dessa linguagem. Por outro lado, todos os semioticistas da canção têm interesse em saber como as emoções que tornam as canções tão lindas são produzidas com a dosagem dos recursos oferecidos pela música, pela palavra e pela voz. O título do livro foi muito bem sacado.
Alguns dos capítulos reorganizam ideias que apareceram em artigos do Tatit que eu já havia lido. Mas a unidade do livro transformou minha percepções iniciais dessas ideias e elucidou várias questões que ainda me incomodavam. Creio que o modelo tensivo de maximização, minimização, recrudescimento e atenuação encaixou muito bem com os modos de compatibilidade melodia/letra. A questão da figurativização, que defendi na minha tese como aspecto central e basilar da produção de Adoniran Barbosa, foi retomada de forma muito mais clara, principalmente no último capítulo, despertando em mim uma tremenda vontade de voltar no tempo e reescrever a parte introdutória de meu texto. Vi também que, se nas obras anteriores Tatit centrou seus esforços de análise em canções nacionais, neste livro apareceram trechos de canções dos Beatles, dando a entender que as conquistas teóricas relacionadas às canções brasileiras podem ser estendidas à produção cancional midiática de boa parte do mundo, coisa que sempre pensei, mas que não tinha convicção intelectual de afirmar.
Mas o mais interessante de "Estimar canções", para além de todos esses méritos teóricos que apontei, é ser um livro leve, acessível, perfeitamente inteligível para os que não têm conhecimento aprofundado de semiótica. Parece-me até mais leve que "Elos de melodia e letra", que até então seria, em minha opinião, a obra referencial para uma primeira aproximação do tema.
A leitura de "Estimar canções" significou muito para mim, por meu interesse em semiótica, mas creio que possa interessar da mesma forma a qualquer amante ou estudioso da canção.
Muito bom.