Editado pelo Mercado das Letras, o livro "Leitura Literária na Escola" é uma compilação de contribuições de vários autores sobre possibilidades de exploração de material literário em sala de aula. A concepção sobre a especificidade do literário é abrangente, permitindo a inclusão de obras ilustradas, ou graficamente fundamentadas em seu texto, ou mesmo de adaptações de obras clássicas. A esse ponto positivo, alia-se a opção por priorizar, em cada capítulo, um tipo específico de material, ora pelo gênero (fábulas, contos de fadas), ora pela extensão (narrativas curtas), ora pela linguagem (quadrinhos). Essa variedade proporciona textos sobre temas pouco explorados, como os livros de imagens e os livros-brinquedo.
Voltada para o professor de educação infantil e fundamental, e uniformizada pela presença, em todos os capítulos, de pelo menos um plano de aulas ou sequência didática, a obra coletiva indica perspectivas múltiplas e plurais de abordagem do material literário em aulas de Português. É possível perceber, dentro desse objetivo geral, que as atividades propostas tem embasamento didático-pedagógico semelhante, e que guardam diversos traços pedagógicos comuns, como a importância da pré-leitura e dos momentos de debate coletivo sobre o texto. Houve, adicionalmente, preocupação em dialogar com as recomendações governamentais sobre o tema e as legislações a ele pertinentes, que orientam (ou intentam orientar) os trabalhos dos professores no cotidiano das instituições.
A uniformidade pedagógica das propostas de atividade é um aspecto interessante nesse livro. Remete à ideia de que seja possível, no limite, aplicar metodologia similar adequada a diversas manifestações distintas do literário, independente do conteúdo da obra, do seu formato, do enraizamento cultural-histórico e das especificidades dos gêneros e suportes estudados. Outras investigações, partindo dessa premissa inferida, podem, futuramente, considerando a similaridade das intervenções (calcada em um conhecimento pedagógico comum), estudar as diferenças oriundas das particularidades de cada material (perguntar, por exemplo, como uma etapa de visualização e inferência pode suscitar orientações específicas em um romance, em um conto de fadas ou em um poema de cordel). Encaminhar as reflexões para o aproveitamento das propriedades literárias das obras é um objetivo citado em muitos capítulos do livro, e poderia ser mais explorado em trabalhos posteriores. Implicaria questionar sobre o que há, por exemplo, na fábula, que pode ser aproveitado na mediação didática para apresentá-la de maneira mais próxima de sua função literária e estética, ou seja, que possa valorizá-la enquanto fábula. Talvez isso equivalha a pensar menos como um professor de Português e mais como um professor de Artes, mas não deixa de ser um desafio instigante, dado que o desinteresse por livros é problema tão grave para nossa educação quanto a defasagem no domínio das estruturas da língua.




