sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Germinal, de Zola





De forma diferente da que ganhou corpo nos debates filosóficos atuais, sempre se constituiu, em minha cabeça de artista da palavra, o problema de falar-escrever por quem normalmente não fala-escreve. Para mim, poder versar sobre a vida das pessoas mais pobres, com menos acesso aos bens culturais considerados de prestígio e mais distanciamento dos meios universitários brasileiros - que, desde quando eu era estudante, eram amplamente dominados por elite e classe média - seria altamente honrado e esteticamente elevado. Mas não seria apenas escrever sobre isso, narrando do ponto de vista de um filho primogênito de professora primária a quem nada nunca faltou. Para que o projeto fosse bacana, haveria a necessidade de compreender, assumir e desenvolver pontos de vista relacionados a histórias de vida de pessoas a quem, muitas vezes, quase tudo faltou, inclusive a condição de uso da palavra. 
Talvez isso não seja plenamente possível de nenhuma forma, porque a expressão autêntica nunca é autêntica de fato, uma vez que os indivíduos sempre estão intercambiando ideias, prescrições de gênero e expectativas de valoração do que fazem. Mas essa impossibilidade, para mim, não tiraria o valor das tentativas de aproximação das vozes dos autores com vozes outras e múltiplas, desde que o discurso incorporasse a autocrítica dos limites de apropriação.
Nunca resolvi esse dilema na prática e nem fiz nada que saciasse essa longínqua e poderosa ambição, mas reconheço em "Germinal", de Émile Zola, um esforço lídimo e teimoso de encontrar, pelo romance, vozes marginais. Vozes essas que são de greve, de revolta, de fome, de animalidade, virulência e violência, mas também (e essa é grandeza do romance) de paixões, medos, incertezas, invejas, ciúmes, veleidades, vilezas. Zola formula um universo cru e cruel, intenso, por vezes repugnante e assustador; por outro lado, oferece, em suas personagens, uma dimensão humana frágil e cambaleante, suficientemente construída para evitar que as sucessões de eventos na trama funcionem como uma comprovação de tese sobre o caráter das raças ou das classes. Parece que a solução encontrada pelo autor faz com que sua visão de mundo e sua pesquisa sobre as condições materiais da existência acabem dialogando com algo da essência do humano. Afinal, é preciso muita sensibilidade literária para saber dosar o real verdadeiro do chão de fábrica (ou de mina) e o real verossímil das letras que o traduzem. 
Não sei se Zola pode legitimamente falar pelos mineiros franceses do século XIX. Sei que os que falam por ele são notáveis, e ficam na nossa memória como excelentes tipificações da miséria advinda da exploração. E isso é legítimo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Madame Bovary, de Gustave Flaubert



Há muitos aspectos deste romance que merecem exploração consistente, amparada por pesquisa histórica e reflexão sociológica. O impacto cultural que gerou, à época, seria por si só objeto de estudo para anos de dedicação e análise. Isso tem sido feito de há muito, e por isso vou me preocupar apenas em pensar nas questões que me surgiram e me comoveram a partir da leitura de fruição, solta e desarticulada. 
A personagem Emma Bovary encanta, comove, assusta e incomoda por causa de sua verdade (ou verossimilhança, para usar um termo mais filosófico). A intensidade de Emma não tem a ver exatamente com a historicidade ou factibilidade de suas peripécias, e sim com a ideia de insatisfação. Parece-me, na essência, que essa seria uma ideia vedada às mulheres da época, pelo menos no tocante à esfera pública e social. Uma mulher tinha um papel a cumprir, e tinha de dar-se por satisfeita, ou sentir-se realizada, se conseguisse se enquadrar dentro dessa caixinha, assustadoramente restrita. 
Emma permite-se romper com isso, permite-se experimentar, amar, fugir, gastar, trair, mentir, chorar, seduzir. A construção psicológica de Emma é profundamente libertadora, talvez até ultrapassando as  intenções estéticas de Flaubert. Parece-me que esse anseio pela felicidade, pela satisfação, pela descoberta de sentimentos mais fortes e prazeres superiores, que particulariza Emma como provocação à história de uma sociedade que ainda não estava preparada para ela, é, ao mesmo, a peça-chave da universalidade do romance e do grau de comoção que ele é capaz de promover. A dor de Emma Bovary e a dor das pessoas que vivem vidas insípidas se entrecruzam além dos fatores particulares da trama e da ambientação. Não é difícil olhar ao nosso redor, no nosso modo de vida individualista, consumista e competitivo, e perceber que estamos o tempo todo sonhando com viradas da sorte que nos façam sentir especiais como pessoas, como figuras públicas, como amantes e amados. Fazer maratonas de séries, explodir a conta do cartão de crédito, comer até explodir, sentir prazer de confrontar e humilhar desconhecidos, esconder do conhecimento público os prazeres e as compensações que dão sentido à nossa vida, tudo isso mostra como a inconformação e a busca do direito à felicidade, mormente para as mulheres em todos os tempos, continuam representando percalços incômodos à ordem estabelecida. Em tempos de moralismo hipócrita, vale sempre revisitar a acidez do realismo.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crime e castigo, de Dostoiévski




Tem algo em relação a Ingmar Bergman que também vale para Dostoiévski. Consiste no fato de que não consigo ver dois filmes em sequência do gênio sueco (deve haver no mínimo uma semana entre um e outro). A forma como ele trabalha com as disposições psicológicas reprimidas do indivíduo causa-me tamanho incômodo que preciso de um tempo para me reajustar e repensar as angústias que  foram despertadas. 
Em relação ao gênio russo, é a mesma sensação (e o mesmo período de tempo de recuperação). Termina-se de ler uma obra como Crime e Castigo e logo vem a impressão de que não é possível exprimir todo o sentimento que o livro revolve dentro do leitor. A impressão de penetração profunda no oceano do espírito humano talvez seja a mais óbvia para qualquer um de nós, e por isso deixo-a de lado. Para além disso, há a sensação de que o estilo de Dostoiévski se sustenta na capacidade de descrever tipos humanos pelo discurso que ficcionalmente proferem, e que eles se mostram mais complexos do que seria necessário para o desenvolvimento "seco" da trama. E por isso a trama necessita de encontros e desencontros, diálogos e desinteligências, e todo o tipo de estratégia de construção de personas discursivas que for possível. São essas personas, muito humanas e muito suscetíveis a tudo o que o humano é, que fazem as amarras da história, não apenas com seus interesses, mas com suas vacilações, seus sustos, seus delírios.
Dentre as muitas grandes sacadas do autor, a que mais me estremece é a da qualificação de homens ordinários e extraordinários, que está amarrada, na fala de Raskólnikov, às possibilidades morais e às perspectivas de avaliação e sanção social. Por esse mecanismo, a noção de grandeza, que pode, como sabemos, ser ideologicamente constituída por meio das premissas mais absurdas, consegue transformar-se em salvo-conduto social da barbárie e até mesmo do sadismo inconsciente individual. Completamente perturbador, porque completamente atual.
Vale reler depois de se rever Match Point, de Woody Allen.