segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crime e castigo, de Dostoiévski




Tem algo em relação a Ingmar Bergman que também vale para Dostoiévski. Consiste no fato de que não consigo ver dois filmes em sequência do gênio sueco (deve haver no mínimo uma semana entre um e outro). A forma como ele trabalha com as disposições psicológicas reprimidas do indivíduo causa-me tamanho incômodo que preciso de um tempo para me reajustar e repensar as angústias que  foram despertadas. 
Em relação ao gênio russo, é a mesma sensação (e o mesmo período de tempo de recuperação). Termina-se de ler uma obra como Crime e Castigo e logo vem a impressão de que não é possível exprimir todo o sentimento que o livro revolve dentro do leitor. A impressão de penetração profunda no oceano do espírito humano talvez seja a mais óbvia para qualquer um de nós, e por isso deixo-a de lado. Para além disso, há a sensação de que o estilo de Dostoiévski se sustenta na capacidade de descrever tipos humanos pelo discurso que ficcionalmente proferem, e que eles se mostram mais complexos do que seria necessário para o desenvolvimento "seco" da trama. E por isso a trama necessita de encontros e desencontros, diálogos e desinteligências, e todo o tipo de estratégia de construção de personas discursivas que for possível. São essas personas, muito humanas e muito suscetíveis a tudo o que o humano é, que fazem as amarras da história, não apenas com seus interesses, mas com suas vacilações, seus sustos, seus delírios.
Dentre as muitas grandes sacadas do autor, a que mais me estremece é a da qualificação de homens ordinários e extraordinários, que está amarrada, na fala de Raskólnikov, às possibilidades morais e às perspectivas de avaliação e sanção social. Por esse mecanismo, a noção de grandeza, que pode, como sabemos, ser ideologicamente constituída por meio das premissas mais absurdas, consegue transformar-se em salvo-conduto social da barbárie e até mesmo do sadismo inconsciente individual. Completamente perturbador, porque completamente atual.
Vale reler depois de se rever Match Point, de Woody Allen.

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