domingo, 14 de janeiro de 2018

Madame Bovary, de Gustave Flaubert



Há muitos aspectos deste romance que merecem exploração consistente, amparada por pesquisa histórica e reflexão sociológica. O impacto cultural que gerou, à época, seria por si só objeto de estudo para anos de dedicação e análise. Isso tem sido feito de há muito, e por isso vou me preocupar apenas em pensar nas questões que me surgiram e me comoveram a partir da leitura de fruição, solta e desarticulada. 
A personagem Emma Bovary encanta, comove, assusta e incomoda por causa de sua verdade (ou verossimilhança, para usar um termo mais filosófico). A intensidade de Emma não tem a ver exatamente com a historicidade ou factibilidade de suas peripécias, e sim com a ideia de insatisfação. Parece-me, na essência, que essa seria uma ideia vedada às mulheres da época, pelo menos no tocante à esfera pública e social. Uma mulher tinha um papel a cumprir, e tinha de dar-se por satisfeita, ou sentir-se realizada, se conseguisse se enquadrar dentro dessa caixinha, assustadoramente restrita. 
Emma permite-se romper com isso, permite-se experimentar, amar, fugir, gastar, trair, mentir, chorar, seduzir. A construção psicológica de Emma é profundamente libertadora, talvez até ultrapassando as  intenções estéticas de Flaubert. Parece-me que esse anseio pela felicidade, pela satisfação, pela descoberta de sentimentos mais fortes e prazeres superiores, que particulariza Emma como provocação à história de uma sociedade que ainda não estava preparada para ela, é, ao mesmo, a peça-chave da universalidade do romance e do grau de comoção que ele é capaz de promover. A dor de Emma Bovary e a dor das pessoas que vivem vidas insípidas se entrecruzam além dos fatores particulares da trama e da ambientação. Não é difícil olhar ao nosso redor, no nosso modo de vida individualista, consumista e competitivo, e perceber que estamos o tempo todo sonhando com viradas da sorte que nos façam sentir especiais como pessoas, como figuras públicas, como amantes e amados. Fazer maratonas de séries, explodir a conta do cartão de crédito, comer até explodir, sentir prazer de confrontar e humilhar desconhecidos, esconder do conhecimento público os prazeres e as compensações que dão sentido à nossa vida, tudo isso mostra como a inconformação e a busca do direito à felicidade, mormente para as mulheres em todos os tempos, continuam representando percalços incômodos à ordem estabelecida. Em tempos de moralismo hipócrita, vale sempre revisitar a acidez do realismo.

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