domingo, 22 de julho de 2012

Adoniran Barbosa - Valter Krausche



Pequeno ensaio sociológico sobre a importância cultural de Adoniran  para a cidade de São Paulo, o livro de Krausche é referência obrigatória para quem estuda a obra desse compositor. O autor demonstra aguda compreensão da relação entre Adoniran e a cidade. Muitas de suas colocações são paradigmáticas para qualquer trabalho que se proponha a analisar os aspectos poéticos da melancolia do sambista. Krausche percebe, por exemplo, que o ritmo e a cadência entonacional da fala, mais do que a imitação dos desvios fonéticos e ortográficos, são a base da musicalidade diferenciada de Adoniran. Mais tarde, os estudos de Tatit sobre a figurativização na canção brasileira viriam apenas solidificar as percepções de Krausche por meio de um aparato de análise mais elaborado e conceitualmente preciso (o da semiótica). As análises das letras de canções empreendidas por Krausche revelam-se precisas e pertinentes, e isso permite que o autor identifique traços fundamentais do estilo composicional de Adoniran. As questões levantadas por Krausche remetem à necessidade de um estudo mais profundo e detalhado sobre os elementos que compõem esse estilo, que poderia confirmar a relevância dos traços que identificou. Para quem estuda Adoniran, uma obra incontornável.

Canto: uma expressão - Mônica Marsola e Tutti Baê



Embora tenha estudado canto popular na ULM durante dois anos, sempre fui muito carente de informações técnicas sobre a voz. A despeito das empostações aprendidas, dos treinamentos e dos vocalizes, faltava-me, por certo, uma obra didática que conseguisse reunir informação suficiente para uma noção mais ampla a respeito do canto. Este livro preenche essa lacuna com competência. Não é uma obra para aprofundamento; na verdade, é um livro pensado para iniciantes. No entanto, está longe de ser superficial ou descartável. Vários dos aspectos fundamentais para o bom desenvolvimento do cantor são abordados com clareza. As dicas são muito úteis e é possível ir longe com o treinamento constante dos vocalizes que vêm no CD de apoio. 
Uma nota cômica: o prefácio do livro, de autoria de Guga Stroeter, deve irritar os leitores que já cantam profissionalmente e possuem alguma "síndrome de diva".

Saberes docentes e formação profissional - Maurice Tardif



Na bibliografia de apoio do próximo curso que ministrarei, de metodologia de ensino, encontra-se essa obra fundamental e profunda de Maurice Tardif. O autor procura avançar questões importantes relacionadas ao magistério, investigando a síncrese de saberes que são invocados pelo professor quando ministra suas aulas, em situação real. Um das críticas mais contundentes efetuadas por Tardif é a que se refere ao distanciamento entre o conhecimento teórico universitário produzido por especialistas em pedagogia e o conhecimento teórico e prático efetivamente útil aos professores quando estão trabalhando. Para preencher essa lacuna, o autor propõe toda uma tipologia dos saberes associados à prática pedagógica, e novas formas de investigação e pesquisa que posicionem o professor como um parceiro do pesquisador na construção de conhecimentos, e não como simples objeto de estudos da academia. Embora seja muito bem redigido e rigoroso conceitualmente, é uma obra que exige releituras e fichamentos, em função da complexidade dos argumentos e da referência frequente a outros pensadores e outras correntes de interpretação do fenômeno educacional.

sábado, 14 de julho de 2012

Sociologia da educação - Alberto Tosi Rodrigues




Li esse livro de uma só vez, para produção de conteúdo de uma disciplina que ministro regularmente. Deveria ter lido antes. É uma das melhores introduções que já li para temas de ciências humanas. Tosi adotou uma linguagem fluente, didatizada, sem a aridez conceitual dos textos que habitualmente vemos nessa área. 
Há um capítulo para Durkheim, um para Marx, um para Weber, o que faz justiça aos três verdadeiros pais da Sociologia. O capítulo sobre Weber consegue a proeza de trazer luz a um dos pensadores mais complexos desse campo. Bourdieu, Gramsci e Manheim também são prestigiados em um capítulo à parte, e os últimos capítulos traduzem e explicam contribuição de Michael Apple. Para quem não conhece muito do assunto, como eu, há ainda indicações bibliográficas úteis.
O livro fez com que eu me pusesse a refletir sobre a questão da violência na escola. Essa questão não é abordada diretamente na obra, mas os textos permitem refletir sobre alguns parâmetros para delimitá-la. Para mim, ficou muito claro que a violência, ou a incidência da violência nas relações sociais, está relacionada ao modo de organização das sociedades e ao contexto cultural em que a escola está inserida. Não é possível pensá-la, por exemplo, sem levar em conta a função atribuída à escola pelo Estado e pelos sistemas políticos, mais preocupados com a formação de mão de obra que com a construção cultural do cidadão (vide Weber). 
Boa pedida, vale a pena. Leitura fácil, tranquila e enriquecedora.