domingo, 25 de março de 2018

O rei da vela, de Oswald de Andrade




Não tive a oportunidade de ver uma encenação desta peça tão clássica e importante. Tive, pelo menos, o contato mínimo com o texto para reconhecer-lhe a força. E creio que boa parte de minha diversão com as sacadas de Oswald está naquilo que tenho de paulistano incrustado na personalidade.
Se alguém retirasse alguns trechos da peça e mostrasse às pessoas sem citar a fonte ou a data, muitas delas se ofenderiam ainda hoje. Essa acidez ficou preservada porque o que Oswald criticava nos idos dos anos 1930 não mudou em essência na mentalidade de grande parcela dos que se pensam "geradores de emprego" e "movimentadores da economia". É muito engraçado para mim ver os dois Abelardos discutindo sobre sangue nobre, e dizendo que São Paulo tem dez famílias, sendo o resto prole. É quase como a gente olhando a extensão das periferias e o isolamento dos bairros nobres e bunkers, e relacionando as duas coisas com alguma justificativa baseada em mérito, esforço ou diferença de aptidão. A posição de subserviência e admiração infundada em relação aos Estados Unidos também me parece muito paulista, até paulistana mesmo. Oswald era filho de uma elite  que conhecia bem a ponto de poder revirar sua sujeira sob o tapete. A verve crítica impiedosa do autor faz muita falta nos dias atuais, nos quais até os mais independentes morrem de medo de perderem o nada que nem têm. 
Mas é preciso atualizar o cenário para uma eventual remontagem, mantendo a substância do texto, que é excelente. Aguardarei, porque gosto de teatro no teatro, ainda que usufrua bem do gosto do texto no papel.

sábado, 17 de março de 2018

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto





A releitura deste romance, que às vezes parece uma melancólica crônica superdimensionada e aprofundada em seus temas, corrobora e amplifica a tristeza do título, a terrível sanção negativa sobre o patriotismo bem intencionado e a confiança nas instituições. O fim de Policarpo, na verdade, é apenas a confirmação de sua inadequação social durante todo o seu trajeto político e ideológico enquanto cidadão. O que Lima Barreto parece ter de mais impagável e insuperável é a capacidade de observação detalhada e precisa do Brasil da Primeira República. Vale notar que olhar do autor não se concentra apenas no que interessa imediatamente ao enredo ou à sua visão de mundo: há exploração de diversas cenas, em diversos ambientes e contextos  igualmente distintos. É um olhar que aprecia com espírito de indagação a pobreza, a riqueza, os militares, as famílias, a vida das mulheres, as aspirações sociais, os imigrantes, os escravos. Por detrás dessa ampla percepção de elementos coetâneos, há um autor implicíto cético, indignado e pessimista, mas creio que não seja possível sustentar muito mais que isso e, talvez, no plano das posições políticas da época, o antiflorianismo e a decepção com as instituições da República. A amargura de Lima Barreto faz com que ele não tome partido explícito e claro das figuras injustiçadas dentro do romance, sejam elas o protagonista romântico Quaresma, as mulheres oprimidas pelo casamento de fachada, ou os escravos do sítio do Sossego. Observador arguto, ele reconhece a opressão, mas não se furta a caracterizar o oprimido de maneira, muitas vezes, negativa. A única exceção é Olga, que parece ser o ponto mental de equilíbrio e valor humano da narrativa.
Como resultado, temos o retrato duro de um período conturbado e tenso. E, de dentro desse retrato, uma reflexão humana e sofrida do conflito entre as escolhas do caráter e a violência das convenções que o corrompem.

A mão e a luva, de Machado de Assis




Talvez pese sobre esse romance de Machado a ideia um tanto ingrata de que seria incorporável ao rol do Romantismo brasileiro. Sendo Machado o maior de nossos prosadores realistas, a obra soaria como um "porém" entre suas grandes produções.
Acredito que em "A mão e a luva" devamos nos conduzir pelas próprias observações do autor sobre seu texto. Em nota introdutória, Machado chamava a atenção para a construção das personagens, em especial da personagem feminina Guiomar, e dizia que esta era a razão de ser do romance.
Uma leitura sem preconceitos e curiosa do livro aponta para méritos que ultrapassam a questão da classificação. De fato, a Guiomar de "A mão e a luva" é uma personagem bonita, cheia de artimanhas,   equilibrando-se entre a postura de altivez e impassibilidade e as vulnerabilidades de um coração ambicioso e sedento de paixão. Diante disso, Luís Alves e Estêvão são tipos mais rasos, e o segundo é quase uma caricatura dos moços românticos desesperados e melodramáticos. 
Entre uma e outra cena do triângulo amoroso, está presente e atento o Machado observador dos costumes, com sacadas filosóficas e chistes sobre a juventude, o amor e os valores sociais. Como a narração não se acopla em definitivo ao ponto de vista das personagens, a não ser na fala final de Luís Alves a Estêvão, o narrador parece um senhor mais velho, ajuizado e experiente, comentando as idas e vindas do jogo de seduções entre Guiomar e pretendentes.
Como leitura de apoio, recomendo o artigo de Rodrigo Silva Trindade, A figura inglesa na ordem escravocrata brasileira: um estudo sobre a personagem Mrs. Oswald em A mão e a luva, de Machado de Assis, para se compreender melhor a parte mais densa do enredo, que é a relação entre baronesa, Guiomar e a governanta. Só jogar no Google que você acha.
De resto, não subestime Machado nem nos seus livros menos badalados. Eles têm muito a dizer.