sábado, 17 de junho de 2017

Como treinar seu o dragão, de Cressida Cowell





Como treinar o seu dragão
Cressida Cowell (também ilustrações)
Tradução de Heloisa Prieto
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

O livro de Cressida Cowell possui características metalinguísticas interessantes, dispostas de maneira a valorizá-lo e a valorizar hábitos e modos de leitura. Essas características são possíveis porque o enredo, as ilustrações e a disposição gráfica dos elementos dialogam entre si, criando um sentido para o livro enquanto livro, mais que para a história enquanto parte do livro.
Em meio à batalha de Soluço para conseguir status dentro do universo viking, há a necessidade de consulta a bibliografia especializada sobre domesticação de dragões. A narrativa faz, então, referência a um livro, mas sem descrevê-lo. A capa, contracapa, a ficha de empréstimo na biblioteca, o conteúdo e a quarta capa do livro ficcional são apresentados como símiles nas páginas do livro real. Esse recurso traz para o enredo o próprio encanto do contato físico com a obra e da busca de informação e entretenimento inerente a esse contato. Essa é uma sacada realmente valiosa para obras de literatura juvenil, e é reforçada por outros momentos em que referências a práticas escritas aproveitam-se da situação intermediária entre ilustração e texto: o livro traz ainda boxes explicativos, anotações de cadernetas e até uma carta mal-educada, mas construída dentro das convenções do gênero; tudo isso é apresentado como cópia da estrutura material do portador de texto.
Outros aspectos que tornam a obra de Cowell agradável para as gerações mais novas são o manejo das fontes gráficas e as escolhas de comparativos para as descrições realizadas. No primeiro caso, é interessante notar que há farta presença de grafia em maiúsculas, em grande parte para distinguir trechos falados de gritados, sedimentando a demarcação da oralidade em uso e reforçando aspectos oratórios importantes para o enredo. Também deve ser notada a diferenciação gráfica (apenas gráfica) entre a língua da narração e a língua dos dragões. No segundo caso, nota-se um esforço de trazer para a obra ficcionalmente escrita em período viking referências atuais e próximas do leitor, de maneira a proceder a identificação, e sem grande preocupação com a verossimilhança da pseudoautoria, já em si uma brincadeira da própria autora. É o que acontece, por exemplo, quando a palavra nerd descreve alguns dos meninos vikings mais introspectivos e estudiosos.
Essas propriedades da obra podem não ser a razão de seu sucesso comercial, mas agregam valor ao livro, mais que à narrativa, como experiência interessante do ponto de vista editorial. O enredo, em si, é bem próximo dos topos do gênero, mas o tratamento simpático, alegre, divertido e espertamente autoirônico garante o prazer da leitura para a garotada.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry




Lamento ter de revelar que até os meus 43 anos de idade ainda não havia lido esse livro belo e precioso. Mas admito que foi bom fazer isso já mais maduro, porque acredito que esse é um daqueles livros infantis que não são exatamente infantis. A sensibilidade mostrada pelo autor passa por uma maturação de sentimentos e experiências, por um sentido de vida e de descoberta que nós só conseguimos vislumbrar ou pensar sobre ele quando nos deixou de ser natural. 
Não há nada na história que justifique o encadeamento lógico da partes, a não ser a fina percepção poética de Exupéry e sua doçura de redação. Se fizéssemos uma síntese narrativa do texto, perderíamos exatamente tudo. A força e a beleza estão no encadeamento de cada frase, na surpresa das reações, nas excelentes metáforas e comparações. Talvez se possa pensar em um conjunto de parábolas sobre o comportamento adulto, mas essa também seria uma redução injusta. O acendedor de lampião, por exemplo, não é uma parábola sobre o cumprimento de regulamentos. Ele é uma sátira explícita dos exageros desse modo de agir. O desenho da jiboia engolindo um elefantes não é uma metáfora da percepção diferenciada da criança; ele é praticamente um exemplo disso.
Eu tenho medo de ler a parte da raposa e desabar nas lágrimas. É uma das passagens mais edificantes que já conheci, e a melhor forma de se dizer o que é alguém que se importa.
Esse é um daqueles livros que reforça a ideia de que o texto literário não é passível de simplificações. Você precisa beber da poesia da escrita para entender o sabor da mensagem.
Lindo e tocante.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mente e cérebro - Emoções: Alegria, de Daniel Kupermann e Ramon Souza




Interessante introdução ao tema, servindo também como introdução à coleção que trata das emoções humanas. Os autores apresentam a alegria como um sentimento a ser reprimido dentro da lógica do trabalho, da racionalidade e do esforço intelectual, mas ao mesmo tempo como a grande força propulsora das ações humanas. Há referências a Freud, Lacan, Nietszche, e interpretações muito interessantes da fábula da cigarra e da formiga. Particularmente, gostei dos trechos que fazem referência às crianças e à capacidade que têm de satisfações espontâneas e efêmeras. A parte final me fez pensar que, se a alegria se opõe ao medo, como o livro preconiza, o maior impedimento à alegria também é o maior impedimento à tristeza, que é a restrição ao prazer espontâneo pela sensação de perda do controle (o medo, justamente), e aqui estou considerando que a tristeza não é necessariamente um desprazer, vide a predileção de muitas pessoas por eventos artísticos dramáticos, sentimentais, tristes etc.
O melhor trecho do livro, para mim, é aquele que nos diz, sobre a alegria, que 

a cultura ocidental restringiu muito seu alcance. Desde o advento da modernidade, se não antes, a alegria passou a ser vista com grande suspeição. Em nome da sensatez ditada pela adoção da Razão e de seus produtos maiores - a ciência, a tecnologia, o trabalho e evidentemente o lucro que os acompanha - como bússolas norteadoras das ações humanas, passou-se a olhar com reserva a desmesura e o poder inebriante desta que é a mais contagiante das emoções. Como se a alegria devesse ser tanto mais temida quanto mais afasta o homem da retidão controlada e do cálculo que, por meio do adiamento das satisfações do corpo e da alma, promete recompensas futuras. Com o agravante de que a sua irresistível propagação pode adquirir proporções inimagináveis.

A leitura desse trecho por um artista merece, no mínimo, um largo sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estimar canções - Luiz Tatit




Passados já agora mais de 15 meses de minha defesa de doutorado, comprei este livro do meu orientador, o professor Luiz Tatit, maior semioticista da canção no país. A experiência de leitura foi surpreendente. Embora os textos de semiótica sejam complicados para a leitura do público em geral e muitas vezes exigentes com os próprios estudantes da área, posso atestar que li o livro todo em dois dias, de uma vez, sem grandes problemas. É verdade que muitas das questões que ficaram pendentes das discussões da minha defesa foram aclaradas nessa obra, com explicações eficazes e exemplos precisos. Mas também é verdade que as ideias centrais da pesquisa do Tatit estão organizadas de forma muito clara nesse livro, o que fez com que a leitura fluísse mesmo nos pontos não tão imediatamente ligados à minha pesquisa.
A ideia de estimar canções, com os dois significados do verbo, é simplesmente brilhante. Não creio que nenhum estudioso da semiótica da canção pense em criar uma forma puramente científica de avaliar o material dessa linguagem. Por outro lado, todos os semioticistas da canção têm interesse em saber como as emoções que tornam as canções tão lindas são produzidas com a dosagem dos recursos oferecidos pela música, pela palavra e pela voz. O título do livro foi muito bem sacado.
Alguns dos capítulos reorganizam ideias que apareceram em artigos do Tatit que eu já havia lido. Mas a unidade do livro transformou minha percepções iniciais dessas ideias e elucidou várias questões que ainda me incomodavam. Creio que o modelo tensivo de maximização, minimização, recrudescimento e atenuação encaixou muito bem com os modos de compatibilidade melodia/letra. A questão da figurativização, que defendi na minha tese como aspecto central e basilar da produção de Adoniran Barbosa, foi retomada de forma muito mais clara, principalmente no último capítulo, despertando em mim uma tremenda vontade de voltar no tempo e reescrever a parte introdutória de meu texto. Vi também que, se nas obras anteriores Tatit centrou seus esforços de análise em canções nacionais, neste livro apareceram trechos de canções dos Beatles, dando a entender que as conquistas teóricas relacionadas às canções brasileiras podem ser estendidas à produção cancional midiática de boa parte do mundo, coisa que sempre pensei, mas que não tinha convicção intelectual de afirmar.
Mas o mais interessante de "Estimar canções", para além de todos esses méritos teóricos que apontei, é ser um livro leve, acessível, perfeitamente inteligível para os que não têm conhecimento aprofundado de semiótica. Parece-me até mais leve que "Elos de melodia e letra", que até então seria, em minha opinião, a obra referencial para uma primeira aproximação do tema.
A leitura de "Estimar canções" significou muito para mim, por meu interesse em semiótica, mas creio que possa interessar da mesma forma a qualquer amante ou estudioso da canção.
Muito bom.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Semiótica Visual - Antonio Vicente Pietroforte



Excelente obra sobre as aplicações da semiótica greimasiana em textos visuais. Desde o início de meus estudos nessa área, sempre tive dificuldades para compreender como seria possível desenvolver as noções gerativas, principalmente as de narratividade, no contexto de fotografias, quadros e obras arquitetônicas. Pietroforte oferece soluções brilhantes, sempre fiéis à linha teórica da semiótica francesa. Particularmente interessantes são suas análises da poesia concreta, mesclando o texto linguístico e o visual, e da história em quadrinhos. A partir do livro, também consegui delimitar e compreender melhor minhas sensações quando visito o prédio da FAU-USP. Imprescindível para quem quer discutir textos visuais.

PIETROFORTE, A. V. Semiótica visual: os percursos do olhar. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2012.

sábado, 24 de maio de 2014

Blues - Coleção Para Saber Mais - Helton Ribeiro



Uma das coisas mais interessantes sobre esta introdução ao blues, muito bem redigida e muito instrutiva, é que ela está repleta de indicações para audição. Assim, com as facilidades da internet, como os programas de troca de arquivos e de compartilhamento de áudio e vídeo, torna-se possível completar cada um dos capítulos lidos com informações visuais e sonoras imprescindíveis para a fruição do gênero. De nada adianta ler sobre blues sem senti-lo, ouvi-lo e experimentá-lo. Helton Ribeiro demonstra ter plena consciência disso, e sua obra é um convite para essa experiência.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O que é cultura popular - Antonio Augusto Arantes



Interessante livro da excelente coleção Primeiros Passos. Traz algumas reflexões do autor sobre suas experiências com cultura popular embasadas pela leitura de especialistas da antropologia e filosofia. A ideia principal é o caráter de confronto e disputa política pelos espaços de cultura, e a definição da identidade cultural de diferentes grupos a partir dessa disputa, e não da definição prévia de elementos "populares" e "eruditos". Serve para pensar Adoniran e o samba paulistano. Serve também para pensar nas estratégias de estigmatização da ação social das classes menos favorecidas, bem como na busca da homogeneização do gosto e das práticas culturais pelos valores das classes dominantes.