segunda-feira, 5 de maio de 2014

O que é cultura popular - Antonio Augusto Arantes



Interessante livro da excelente coleção Primeiros Passos. Traz algumas reflexões do autor sobre suas experiências com cultura popular embasadas pela leitura de especialistas da antropologia e filosofia. A ideia principal é o caráter de confronto e disputa política pelos espaços de cultura, e a definição da identidade cultural de diferentes grupos a partir dessa disputa, e não da definição prévia de elementos "populares" e "eruditos". Serve para pensar Adoniran e o samba paulistano. Serve também para pensar nas estratégias de estigmatização da ação social das classes menos favorecidas, bem como na busca da homogeneização do gosto e das práticas culturais pelos valores das classes dominantes.

domingo, 22 de julho de 2012

Adoniran Barbosa - Valter Krausche



Pequeno ensaio sociológico sobre a importância cultural de Adoniran  para a cidade de São Paulo, o livro de Krausche é referência obrigatória para quem estuda a obra desse compositor. O autor demonstra aguda compreensão da relação entre Adoniran e a cidade. Muitas de suas colocações são paradigmáticas para qualquer trabalho que se proponha a analisar os aspectos poéticos da melancolia do sambista. Krausche percebe, por exemplo, que o ritmo e a cadência entonacional da fala, mais do que a imitação dos desvios fonéticos e ortográficos, são a base da musicalidade diferenciada de Adoniran. Mais tarde, os estudos de Tatit sobre a figurativização na canção brasileira viriam apenas solidificar as percepções de Krausche por meio de um aparato de análise mais elaborado e conceitualmente preciso (o da semiótica). As análises das letras de canções empreendidas por Krausche revelam-se precisas e pertinentes, e isso permite que o autor identifique traços fundamentais do estilo composicional de Adoniran. As questões levantadas por Krausche remetem à necessidade de um estudo mais profundo e detalhado sobre os elementos que compõem esse estilo, que poderia confirmar a relevância dos traços que identificou. Para quem estuda Adoniran, uma obra incontornável.

Canto: uma expressão - Mônica Marsola e Tutti Baê



Embora tenha estudado canto popular na ULM durante dois anos, sempre fui muito carente de informações técnicas sobre a voz. A despeito das empostações aprendidas, dos treinamentos e dos vocalizes, faltava-me, por certo, uma obra didática que conseguisse reunir informação suficiente para uma noção mais ampla a respeito do canto. Este livro preenche essa lacuna com competência. Não é uma obra para aprofundamento; na verdade, é um livro pensado para iniciantes. No entanto, está longe de ser superficial ou descartável. Vários dos aspectos fundamentais para o bom desenvolvimento do cantor são abordados com clareza. As dicas são muito úteis e é possível ir longe com o treinamento constante dos vocalizes que vêm no CD de apoio. 
Uma nota cômica: o prefácio do livro, de autoria de Guga Stroeter, deve irritar os leitores que já cantam profissionalmente e possuem alguma "síndrome de diva".

Saberes docentes e formação profissional - Maurice Tardif



Na bibliografia de apoio do próximo curso que ministrarei, de metodologia de ensino, encontra-se essa obra fundamental e profunda de Maurice Tardif. O autor procura avançar questões importantes relacionadas ao magistério, investigando a síncrese de saberes que são invocados pelo professor quando ministra suas aulas, em situação real. Um das críticas mais contundentes efetuadas por Tardif é a que se refere ao distanciamento entre o conhecimento teórico universitário produzido por especialistas em pedagogia e o conhecimento teórico e prático efetivamente útil aos professores quando estão trabalhando. Para preencher essa lacuna, o autor propõe toda uma tipologia dos saberes associados à prática pedagógica, e novas formas de investigação e pesquisa que posicionem o professor como um parceiro do pesquisador na construção de conhecimentos, e não como simples objeto de estudos da academia. Embora seja muito bem redigido e rigoroso conceitualmente, é uma obra que exige releituras e fichamentos, em função da complexidade dos argumentos e da referência frequente a outros pensadores e outras correntes de interpretação do fenômeno educacional.

sábado, 14 de julho de 2012

Sociologia da educação - Alberto Tosi Rodrigues




Li esse livro de uma só vez, para produção de conteúdo de uma disciplina que ministro regularmente. Deveria ter lido antes. É uma das melhores introduções que já li para temas de ciências humanas. Tosi adotou uma linguagem fluente, didatizada, sem a aridez conceitual dos textos que habitualmente vemos nessa área. 
Há um capítulo para Durkheim, um para Marx, um para Weber, o que faz justiça aos três verdadeiros pais da Sociologia. O capítulo sobre Weber consegue a proeza de trazer luz a um dos pensadores mais complexos desse campo. Bourdieu, Gramsci e Manheim também são prestigiados em um capítulo à parte, e os últimos capítulos traduzem e explicam contribuição de Michael Apple. Para quem não conhece muito do assunto, como eu, há ainda indicações bibliográficas úteis.
O livro fez com que eu me pusesse a refletir sobre a questão da violência na escola. Essa questão não é abordada diretamente na obra, mas os textos permitem refletir sobre alguns parâmetros para delimitá-la. Para mim, ficou muito claro que a violência, ou a incidência da violência nas relações sociais, está relacionada ao modo de organização das sociedades e ao contexto cultural em que a escola está inserida. Não é possível pensá-la, por exemplo, sem levar em conta a função atribuída à escola pelo Estado e pelos sistemas políticos, mais preocupados com a formação de mão de obra que com a construção cultural do cidadão (vide Weber). 
Boa pedida, vale a pena. Leitura fácil, tranquila e enriquecedora.

domingo, 22 de novembro de 2009

Lavoura arcaica - Raduan Nassar

Acabo de ler essa obra espantosa que é Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. E não terei a menor pretensão de oferecer análise alguma após esta primeira leitura. Prefiro ir relendo aos poucos e colocando aqui impressões que vão ganhando corpo na minha interpretação desta história incrível.
Primeiro, quero pensar que li um livro escrito com muito capricho e muita inspiração. Muito capricho pela variação constante das formas de narrar, pelas mudanças de estilo e de ritmo, pela quantidade impressionante de imagens fortes e intensas e pelo trabalho artesanal com o léxico e a linguagem. Muita inspiração pela felicidade das escolhas, pelo acerto das mudanças citadas, pela química conseguida na somatória dos capítulos. Creio que esse segundo aspecto é um pouco inexplicável, pois supõe também certa empatia do leitor com o esforço artístico do autor; ainda assim, procurarei delimitar essa boa impressão nos termos cartesianos de análise, decompondo-a e examinando-a em suas partes, no curso de minhas releituras. Prometo.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O vôo da madrugada - Sérgio Sant'Anna

Recém-saído de um mergulho em Notas de Manfredo Rangel, repórter, obra que foi tema de minha dissertação de mestrado, achei que ficaria um bom tempo sem ler nada de Sérgio Sant'Anna, até me recuperar. Mas não resisti à curiosidade e hoje devorei O vôo da madrugada, que, consta-me, é seu livro mais recente.
Muito bem arranjado e com grandes sacadas sobre o comportamento humano, o livro traz algumas recorrências temáticas do autor trabalhadas de forma ainda mais provocativa. A questão da atuação da imprensa, chave para compreensão do conto "O monstro" no livro homônimo, reaparece com mais amplitude em "Gorila" e nos contos que o sucedem na segunda parte do livro. Uma certa tendência perspectivista e experimental de composição, característica de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, é retomada no recurso de oferecer diferentes possibilidades de desfecho para alguns dos enredos do livro. A preocupação com a arte, notadamente com a pintura, presente, por exemplo, no conto "Cenários", de O concerto de João Gilberto..., reaparece nos contos da última parte do livro. Até mesmo uma certa preocupação metalinguística com o processo da escrita - que remete a "Conto, não conto" de A senhorita simpson - ganha destaque em vários dos textos, que adotam um processo de reflexão sobre uma escrita ainda não efetivada.
Todos esses elementos recorrentes da obra do autor são retrabalhados de forma inovadora em O vôo da madrugada, que não se caracteriza por ser uma reedição de idéias já buriladas. Uma série de aspectos novos soma-se às constantes literárias de Sérgio para compor um quadro ainda mais envolvente da condição do indivíduo nos tempos atuais. Os contos da segunda parte do livro, por exemplo, trazem o trote telefônico como tema, mas apontam para uma reflexão sobre a solidão e a necessidade de trocar de identidade, questões da ordem do dia na era da internet. A violência urbana e a sua relação com certa parcela da alma dos indivíduos também aparece no conto em que Teresa faz suas confissões ao analista. A necessidade de congelar o tempo, a percepção da solidão, o sentimento de envelhecimento, todas essas preocupações da vida contemporânea são tangenciadas pelo texto perspicaz, irônico e algo mordaz do autor.
Um último aspecto merece destaque na obra: o diálogo literário e referencial entre os diferentes contos, estabelecendo uma sensação de continuidade e reiteração nos temas, mas, ao mesmo tempo, de insistência no angustiante vazio do devir humano. Imperdível.