sábado, 3 de fevereiro de 2018

O pai Goriot, de Balzac




Por meio dos canais de informação, recebemos, diariamente, grande quantidade de narrativas curtas e incompletas, boa parte delas versando sobre o lado escatológico e egoísta da humanidade. Ao receber essas narrativas, tendemos, pela própria necessidade de comunicação, a emitir juízos sobre as personagens envolvidas, uma vez que, se nos silenciarmos, perdemos a oportunidade de atingir bodes expiatórios coletivos e de encontrar ressonância de nossas reações primeiras/primitivas em outras almas atualizadas pelas mesmas informações. Assim, tornou-se fácil dizer que uma pessoa é um monstro ou um anjo sem jamais termos convivido com ela, sem sabermos nada de sua vida social e sem que tenhamos a menor ideia de seus sentimentos profundos e seus valores humanos.
Quando somos instruídos, por experiência, pesquisa ou sagacidade, a recebermos essas narrativas midiáticas de forma verdadeiramente crítica, estabelecendo uma suspeita prévia dos interesses de imagem construídos pelos textos verbais e visuais a que temos acesso, temos a condição de perceber que as histórias de vida exemplares (para o bem ou para o mal) que recebemos são construções discursivas competentes para fins imediatos, e não muito mais que isso. Por mais que possa ser chocante, todos os nossos ídolos estão em condições de nos decepcionar, assim como todos os nossos bandidos estão em condições de nos surpreender; não significa que isso acontecerá, mas sim que nada impede que isso aconteça. Não temos acesso à parte mais significativa da vida das pessoas, porque, justamente, as pessoas acabam se tornando personagens de narrativas curtas e rasas, meras ilustrações de vislumbres ideológicos vazios. Assim, a fatuidade de nossas avaliações sobre o caráter e os valores de quem não conhecemos senão como imagem imediata, pré-fabricada e pré-estereotipada, é inevitável. Como consequência, julgamos mal, avaliamos mal, percebemos mal, e estamos sempre perto de vilipendiar aquele que não merece, mas também não sabe se defender disso.
Pois bem. A preocupação com as aparências sociais e a ingratidão numa sociedade de miséria humana por debaixo da beleza das máscaras é uma das questões que estabelece o valor literário do tocante "O pai Goriot", de Balzac. Reputa-se o autor como notável observador do comportamento humano e dos hábitos sociais. Sim, e esse romance transpira Paris e os parisienses pós-Napoleão. Mas o que movimenta meus ânimos ao percorrer suas páginas é a sensação reforçada pelas intervenções ácidas do narrador ao comentar a hipocrisia e ingratidão das personagens: a condenação  da desumanização dos indivíduos que, ao buscar a ascensão social, aceitam os encargos de sacrifício de seus valores e de sua dignidade, ou mesmo do abandono de sua dignidade enquanto valor. Ou: de como mergulhar em mundo de aparências tem como preço negar aquilo que nos construiu e capacitou para tal.
Essa inquietação em relação ao que há ou não de humano nos humanos ainda é o que me captura para essa longa, profunda, investigativa e inteligente narrativa, dessas sobre as quais vale a pena discutir.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Germinal, de Zola





De forma diferente da que ganhou corpo nos debates filosóficos atuais, sempre se constituiu, em minha cabeça de artista da palavra, o problema de falar-escrever por quem normalmente não fala-escreve. Para mim, poder versar sobre a vida das pessoas mais pobres, com menos acesso aos bens culturais considerados de prestígio e mais distanciamento dos meios universitários brasileiros - que, desde quando eu era estudante, eram amplamente dominados por elite e classe média - seria altamente honrado e esteticamente elevado. Mas não seria apenas escrever sobre isso, narrando do ponto de vista de um filho primogênito de professora primária a quem nada nunca faltou. Para que o projeto fosse bacana, haveria a necessidade de compreender, assumir e desenvolver pontos de vista relacionados a histórias de vida de pessoas a quem, muitas vezes, quase tudo faltou, inclusive a condição de uso da palavra. 
Talvez isso não seja plenamente possível de nenhuma forma, porque a expressão autêntica nunca é autêntica de fato, uma vez que os indivíduos sempre estão intercambiando ideias, prescrições de gênero e expectativas de valoração do que fazem. Mas essa impossibilidade, para mim, não tiraria o valor das tentativas de aproximação das vozes dos autores com vozes outras e múltiplas, desde que o discurso incorporasse a autocrítica dos limites de apropriação.
Nunca resolvi esse dilema na prática e nem fiz nada que saciasse essa longínqua e poderosa ambição, mas reconheço em "Germinal", de Émile Zola, um esforço lídimo e teimoso de encontrar, pelo romance, vozes marginais. Vozes essas que são de greve, de revolta, de fome, de animalidade, virulência e violência, mas também (e essa é grandeza do romance) de paixões, medos, incertezas, invejas, ciúmes, veleidades, vilezas. Zola formula um universo cru e cruel, intenso, por vezes repugnante e assustador; por outro lado, oferece, em suas personagens, uma dimensão humana frágil e cambaleante, suficientemente construída para evitar que as sucessões de eventos na trama funcionem como uma comprovação de tese sobre o caráter das raças ou das classes. Parece que a solução encontrada pelo autor faz com que sua visão de mundo e sua pesquisa sobre as condições materiais da existência acabem dialogando com algo da essência do humano. Afinal, é preciso muita sensibilidade literária para saber dosar o real verdadeiro do chão de fábrica (ou de mina) e o real verossímil das letras que o traduzem. 
Não sei se Zola pode legitimamente falar pelos mineiros franceses do século XIX. Sei que os que falam por ele são notáveis, e ficam na nossa memória como excelentes tipificações da miséria advinda da exploração. E isso é legítimo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Madame Bovary, de Gustave Flaubert



Há muitos aspectos deste romance que merecem exploração consistente, amparada por pesquisa histórica e reflexão sociológica. O impacto cultural que gerou, à época, seria por si só objeto de estudo para anos de dedicação e análise. Isso tem sido feito de há muito, e por isso vou me preocupar apenas em pensar nas questões que me surgiram e me comoveram a partir da leitura de fruição, solta e desarticulada. 
A personagem Emma Bovary encanta, comove, assusta e incomoda por causa de sua verdade (ou verossimilhança, para usar um termo mais filosófico). A intensidade de Emma não tem a ver exatamente com a historicidade ou factibilidade de suas peripécias, e sim com a ideia de insatisfação. Parece-me, na essência, que essa seria uma ideia vedada às mulheres da época, pelo menos no tocante à esfera pública e social. Uma mulher tinha um papel a cumprir, e tinha de dar-se por satisfeita, ou sentir-se realizada, se conseguisse se enquadrar dentro dessa caixinha, assustadoramente restrita. 
Emma permite-se romper com isso, permite-se experimentar, amar, fugir, gastar, trair, mentir, chorar, seduzir. A construção psicológica de Emma é profundamente libertadora, talvez até ultrapassando as  intenções estéticas de Flaubert. Parece-me que esse anseio pela felicidade, pela satisfação, pela descoberta de sentimentos mais fortes e prazeres superiores, que particulariza Emma como provocação à história de uma sociedade que ainda não estava preparada para ela, é, ao mesmo, a peça-chave da universalidade do romance e do grau de comoção que ele é capaz de promover. A dor de Emma Bovary e a dor das pessoas que vivem vidas insípidas se entrecruzam além dos fatores particulares da trama e da ambientação. Não é difícil olhar ao nosso redor, no nosso modo de vida individualista, consumista e competitivo, e perceber que estamos o tempo todo sonhando com viradas da sorte que nos façam sentir especiais como pessoas, como figuras públicas, como amantes e amados. Fazer maratonas de séries, explodir a conta do cartão de crédito, comer até explodir, sentir prazer de confrontar e humilhar desconhecidos, esconder do conhecimento público os prazeres e as compensações que dão sentido à nossa vida, tudo isso mostra como a inconformação e a busca do direito à felicidade, mormente para as mulheres em todos os tempos, continuam representando percalços incômodos à ordem estabelecida. Em tempos de moralismo hipócrita, vale sempre revisitar a acidez do realismo.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crime e castigo, de Dostoiévski




Tem algo em relação a Ingmar Bergman que também vale para Dostoiévski. Consiste no fato de que não consigo ver dois filmes em sequência do gênio sueco (deve haver no mínimo uma semana entre um e outro). A forma como ele trabalha com as disposições psicológicas reprimidas do indivíduo causa-me tamanho incômodo que preciso de um tempo para me reajustar e repensar as angústias que  foram despertadas. 
Em relação ao gênio russo, é a mesma sensação (e o mesmo período de tempo de recuperação). Termina-se de ler uma obra como Crime e Castigo e logo vem a impressão de que não é possível exprimir todo o sentimento que o livro revolve dentro do leitor. A impressão de penetração profunda no oceano do espírito humano talvez seja a mais óbvia para qualquer um de nós, e por isso deixo-a de lado. Para além disso, há a sensação de que o estilo de Dostoiévski se sustenta na capacidade de descrever tipos humanos pelo discurso que ficcionalmente proferem, e que eles se mostram mais complexos do que seria necessário para o desenvolvimento "seco" da trama. E por isso a trama necessita de encontros e desencontros, diálogos e desinteligências, e todo o tipo de estratégia de construção de personas discursivas que for possível. São essas personas, muito humanas e muito suscetíveis a tudo o que o humano é, que fazem as amarras da história, não apenas com seus interesses, mas com suas vacilações, seus sustos, seus delírios.
Dentre as muitas grandes sacadas do autor, a que mais me estremece é a da qualificação de homens ordinários e extraordinários, que está amarrada, na fala de Raskólnikov, às possibilidades morais e às perspectivas de avaliação e sanção social. Por esse mecanismo, a noção de grandeza, que pode, como sabemos, ser ideologicamente constituída por meio das premissas mais absurdas, consegue transformar-se em salvo-conduto social da barbárie e até mesmo do sadismo inconsciente individual. Completamente perturbador, porque completamente atual.
Vale reler depois de se rever Match Point, de Woody Allen.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Leitura Literária na Escola, organizado por Renata Junqueira de Souza e Berta Lúcia Tagliari Feba





Editado pelo Mercado das Letras, o livro "Leitura Literária na Escola" é uma compilação de contribuições de vários autores sobre possibilidades de exploração de material literário em sala de aula. A concepção sobre a especificidade do literário é abrangente, permitindo a inclusão de obras ilustradas, ou graficamente fundamentadas em seu texto, ou mesmo de adaptações de obras clássicas. A esse ponto positivo, alia-se a opção por priorizar, em cada capítulo, um tipo específico de material, ora pelo gênero (fábulas, contos de fadas), ora pela extensão (narrativas curtas), ora pela linguagem (quadrinhos). Essa variedade proporciona textos sobre temas pouco explorados, como os livros de imagens e os livros-brinquedo. 
Voltada para o professor de educação infantil e fundamental, e uniformizada pela presença, em todos os capítulos, de pelo menos um plano de aulas ou sequência didática, a obra coletiva indica perspectivas múltiplas e plurais de abordagem do material literário em aulas de Português. É possível perceber, dentro desse objetivo geral, que as atividades propostas tem embasamento didático-pedagógico semelhante, e que guardam diversos traços pedagógicos comuns, como a importância da pré-leitura e dos momentos de debate coletivo sobre o texto. Houve, adicionalmente, preocupação em dialogar com as recomendações governamentais sobre o tema e as legislações a ele pertinentes, que orientam (ou intentam orientar) os trabalhos dos professores no cotidiano das instituições. 
A uniformidade pedagógica das propostas de atividade é um aspecto interessante nesse livro. Remete à ideia de que seja possível, no limite, aplicar metodologia similar adequada a diversas manifestações distintas do literário, independente do conteúdo da obra, do seu formato, do enraizamento cultural-histórico e das especificidades dos gêneros e suportes estudados. Outras investigações, partindo dessa premissa inferida, podem, futuramente, considerando a similaridade das intervenções (calcada em um conhecimento pedagógico comum), estudar as diferenças oriundas das particularidades de cada material (perguntar, por exemplo, como uma etapa de visualização e inferência pode suscitar orientações específicas em um romance, em um conto de fadas ou em um poema de cordel). Encaminhar as reflexões para o aproveitamento das propriedades literárias das obras é um objetivo citado em muitos capítulos do livro, e poderia ser mais explorado em trabalhos posteriores. Implicaria questionar sobre o que há, por exemplo, na fábula, que pode ser aproveitado na mediação didática para apresentá-la de maneira mais próxima de sua função literária e estética, ou seja, que possa valorizá-la enquanto fábula. Talvez isso equivalha a pensar menos como um professor de Português e mais como um professor de Artes, mas não deixa de ser um desafio instigante, dado que o desinteresse por livros é problema tão grave para nossa educação quanto a defasagem no domínio das estruturas da língua.

sábado, 17 de junho de 2017

Como treinar seu o dragão, de Cressida Cowell





Como treinar o seu dragão
Cressida Cowell (também ilustrações)
Tradução de Heloisa Prieto
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

O livro de Cressida Cowell possui características metalinguísticas interessantes, dispostas de maneira a valorizá-lo e a valorizar hábitos e modos de leitura. Essas características são possíveis porque o enredo, as ilustrações e a disposição gráfica dos elementos dialogam entre si, criando um sentido para o livro enquanto livro, mais que para a história enquanto parte do livro.
Em meio à batalha de Soluço para conseguir status dentro do universo viking, há a necessidade de consulta a bibliografia especializada sobre domesticação de dragões. A narrativa faz, então, referência a um livro, mas sem descrevê-lo. A capa, contracapa, a ficha de empréstimo na biblioteca, o conteúdo e a quarta capa do livro ficcional são apresentados como símiles nas páginas do livro real. Esse recurso traz para o enredo o próprio encanto do contato físico com a obra e da busca de informação e entretenimento inerente a esse contato. Essa é uma sacada realmente valiosa para obras de literatura juvenil, e é reforçada por outros momentos em que referências a práticas escritas aproveitam-se da situação intermediária entre ilustração e texto: o livro traz ainda boxes explicativos, anotações de cadernetas e até uma carta mal-educada, mas construída dentro das convenções do gênero; tudo isso é apresentado como cópia da estrutura material do portador de texto.
Outros aspectos que tornam a obra de Cowell agradável para as gerações mais novas são o manejo das fontes gráficas e as escolhas de comparativos para as descrições realizadas. No primeiro caso, é interessante notar que há farta presença de grafia em maiúsculas, em grande parte para distinguir trechos falados de gritados, sedimentando a demarcação da oralidade em uso e reforçando aspectos oratórios importantes para o enredo. Também deve ser notada a diferenciação gráfica (apenas gráfica) entre a língua da narração e a língua dos dragões. No segundo caso, nota-se um esforço de trazer para a obra ficcionalmente escrita em período viking referências atuais e próximas do leitor, de maneira a proceder a identificação, e sem grande preocupação com a verossimilhança da pseudoautoria, já em si uma brincadeira da própria autora. É o que acontece, por exemplo, quando a palavra nerd descreve alguns dos meninos vikings mais introspectivos e estudiosos.
Essas propriedades da obra podem não ser a razão de seu sucesso comercial, mas agregam valor ao livro, mais que à narrativa, como experiência interessante do ponto de vista editorial. O enredo, em si, é bem próximo dos topos do gênero, mas o tratamento simpático, alegre, divertido e espertamente autoirônico garante o prazer da leitura para a garotada.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry




Lamento ter de revelar que até os meus 43 anos de idade ainda não havia lido esse livro belo e precioso. Mas admito que foi bom fazer isso já mais maduro, porque acredito que esse é um daqueles livros infantis que não são exatamente infantis. A sensibilidade mostrada pelo autor passa por uma maturação de sentimentos e experiências, por um sentido de vida e de descoberta que nós só conseguimos vislumbrar ou pensar sobre ele quando nos deixou de ser natural. 
Não há nada na história que justifique o encadeamento lógico da partes, a não ser a fina percepção poética de Exupéry e sua doçura de redação. Se fizéssemos uma síntese narrativa do texto, perderíamos exatamente tudo. A força e a beleza estão no encadeamento de cada frase, na surpresa das reações, nas excelentes metáforas e comparações. Talvez se possa pensar em um conjunto de parábolas sobre o comportamento adulto, mas essa também seria uma redução injusta. O acendedor de lampião, por exemplo, não é uma parábola sobre o cumprimento de regulamentos. Ele é uma sátira explícita dos exageros desse modo de agir. O desenho da jiboia engolindo um elefantes não é uma metáfora da percepção diferenciada da criança; ele é praticamente um exemplo disso.
Eu tenho medo de ler a parte da raposa e desabar nas lágrimas. É uma das passagens mais edificantes que já conheci, e a melhor forma de se dizer o que é alguém que se importa.
Esse é um daqueles livros que reforça a ideia de que o texto literário não é passível de simplificações. Você precisa beber da poesia da escrita para entender o sabor da mensagem.
Lindo e tocante.