terça-feira, 28 de abril de 2020

Deixem que leiam - Geneviève Patte




Tendo terminado a leitura da obra de Geneviève Patte, posso apontar algumas qualidades muito evidentes e dizer sinteticamente de que maneira o livro tocou em minha experiência de educador.
O otimismo, a intensidade, a esperança e a convicção positiva da autora em relação às experiências que relata conquistam da primeira à última página. Trata-se de um texto pulsante, cheio de vida, realmente inspirador e estimulador. Há uma forte crença na singularidade da experiência da Biblioteca Viva, nos moldes humanizados e dialógicos com os quais é concebida, e uma aposta permanente no contato das crianças com os bons livros.
Não se trata, de forma alguma, de um otimismo ingênuo ou uma fé fanatizante. Pelo contrário, o conhecimento que sustenta a argumentação da autora foi construído em suas inúmeras viagens e pesquisas em experiências de biblioteca e circulação de livros pelo mundo todo. Patte efetivamente teve contato com uma gama considerável de realidades distintas e, em cada uma dessas realidades, com esforços similares aos seus para fornecer experiências de leitura às crianças e suas famílias. E teve especial carinho e atenção com os trabalhos bem sucedidos em comunidades afastadas, carentes, depauperadas, excluídas. Embasada no que viu e viveu, a autora consegue identificar características benéficas para a divulgação de literatura de qualidade.
Além disso, Patte conhece literatura de qualidade, porque possui repertório de leitura. Nesta obra em particular, perde-se a conta de quantos livros e autores são referenciados e sugeridos. Verdade que a maior parte da bibliografia está em francês, mas isso não nos impede de pensar que qualquer ação relacionada à literatura para crianças envolve a leitura e seleção prévia do melhor material. Esse é um pressuposto que muitas vezes não se prestigia na formação do bibliotecário, e, por que não dizer, do mediador de leitura em geral. A idealizadora da Biblioteca Viva de Clamart deixa, entretanto, muito clara a sua proposta: você será capaz de estimular se, por seu lado, também estiver genuinamente estimulado pelo material que oferece.
Importante ainda ressaltar que, em "Deixem que leiam", procura-se considerar, ao lado da biblioteca, a perspectiva da vida digital de inúmeras crianças. Esse novo mundo de infinitas possibilidades de informação, segundo Patte, não excluiria a especificidade da experiência da biblioteca, porque os bibliotecários/mediadores de leitura seriam capazes de integrar as necessidades das crianças "nativas digitais" ao modo de organização e acesso desses espaços. E isso se daria exatamente pelo aspecto da intervenção adulta, humana, atenta e interessada.
A leitura desse livro trouxe várias inquietações pessoais, e uma enorme vontade de construir a experimentos de circulação de livros em alguns locais que tenho agora em mente. Essa chama que o livro voltou a acender em mim associa-se ao tempo de professor de Ensino Fundamental na Prefeitura de São Paulo, quando trabalhei como Orientador de Sala de Leitura. Muitas das percepções de Patte vão ao encontro dos meus sentimentos nas descobertas cotidianas advindas da observação do comportamento infantil. Existe um aspecto pedagógico na Sala de Leitura, que é, por princípio, uma aula dentro de um horário de aula, exigindo uma programação, alguma atividade, um plano. Mas existe sempre, dentro da Biblioteca, mesmo que seja a Biblioteca escolar e o cronograma rígido da instituição, o aspecto da transgressão, da escolha do livro que o professor não mostrou, da liberdade para fuçar, da tranquilidade para realizar a leitura pessoal e intransferível (e que muitas vezes não pode nem deve ser traduzida em atividade avaliativa). Mais do que a experiência de professor, fala em mim, talvez, a experiência de menino sonhador, que queria que o tempo parasse para poder brincar de explorar bibliotecas e estantes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Poesias completas, de Luís Delfino


Luís Delfino tem estilo prolixo. Romântico tardio, seus poemas são longos e iterativos, explorando os temas à exaustão, explicando os mesmos sentimentos e as mesmas ideias de várias maneiras. Essa opção estética pode gerar efeito de intensidade, em virtude da insistência, mas perde em concisão e contundência dos versos. Poesia própria para a oratória e para temas narrativos, a lírica de Delfino não me comoveu nem empolgou. Reconheço, entretanto, o capricho do vocabulário e a confessionalidade emotiva dos versos. Os truncamentos das frases tiram o vigor narrativo e a força das imagens, muitas vezes, embora garantam a uniformidade dos versos. Não destaco nenhum poemas em especial. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Fanfarras, de Teófilo Dias


Livro que é considerado o primeiro do Parnasianismo no Brasil, apresenta, como solução de recusa à espiritualidade e à fantasia características do Romantismo, uma coleção de poemas fortemente sensuais, tanto pela observação das cenas e objetos exteriores, quanto pelo erotismo carnal. Acontece que, conforme o gosto da corrente literária, esse erotismo é conservador e estetizante, jamais transborda além do impacto da eloquência. Ainda sobrevivem traços da poesia participante e declamatória. Os poemas traduzidos de Baudelaire e Hugo mostram como Teófilo Dias escolhe com menos felicidade imagens, temas e ideias, pois mesmo reelaborados em Português ainda são melhores que os do tradutor. Os poemas "Saudade", "Latet Anguis" e "A voz" parecem ser os mais interessantes em termos de construção, que é, afinal, o que interessa na estética do Parnaso. "O rio e o vento" poderia ter um final mais condizente com o bom desenvolvimento.
Estão lá a tentativa de observação objetificante, a eloquência, a sensualidade do movimento, tudo em potência. Em "Fanfarras", o Parnasianismo ainda não se fez, apenas se insinuou, procurando seu lugar.

Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos





Obra que interessa principalmente como testemunho histórico da percepção poética dos parnasianos, o tratado (designação um tanto quanto arrogante) divide-se em três partes. Na primeira, há um longo apanhado da produções poética brasileira desde a Colônia. Há referência a muitos poetas hoje completamente esquecidos, e isso pode gerar bom material de pesquisa. Na segunda parte, todas as receitas de efeitos sonoros do cabedal parnasiano estão devidamente arroladas. São tratadas as artimanhas do verso tecnicamente apurado, mas o sujeito do discurso deixa escapar, vez por outra, preferências que são só preferências, injustificáveis, indicadas como se fossem leis naturais; talvez seja essa a parte mais curiosa da leitura. Na terceira parte, são apresentadas as formas poéticas consagradas conhecidas até então, com especial atenção para o soneto, considerada a mais especial dentre todas. E é isso.

domingo, 8 de abril de 2018

Macunaíma, de Mário de Andrade




Apesar da necessidade profissional de apresentar uma abordagem mais esquemática e didatizada de "Macunaíma", tentei me conceder a possibilidade de uma aproximação um tanto quanto livre da obra-prima de Mário de Andrade. Fiz, então, uma leitura corrida, solta, menos impressionada com as referências. Não funcionou muito, na verdade. Trata-se de um texto que costura uma variedade ampla de elementos, com passagens muito ágeis em matéria de ação e grande concentração de dados na superfície da escrita. Quando a leitura é mais desprendida, acredito que o efeito imediato é dar risada, porque há pelo menos uma sacada, uma brincadeira, uma mudança de tom a cada dez ou vinte linhas. 
De um ponto de vista mais avaliativos e crítico, o que considero incrível é o quanto de Brasil tem nesse livro, e como ele, que encaro como uma fantástica peça de provocação, consegue aproveitar elementos da brasilidade, até elementos estereotípicos, sem produzir, ao fim, algo que se possa chamar de estereótipo. Mesmo reforçando continuamente os caracteres de "herói sem caráter" do protagonista, Mário não narra de forma condescendente nem judiciante, e amplia a construção do personagem com qualificações díspares e oscilações de postura. No grande Carnaval de valores e disposições de espírito apresentados na obra, a organização do autor implícito revela uma disposição para o poético, o mítico e o onírico, e a liga de tudo é o tom não elevado, que remete ao humorístico e perpassa todo o texto como que brincando com as referências e informações recolhidas. Durante a leitura, é divertido perceber como a oralidade e as tradições de falas e ditos que conhecemos podem aparecer de repente e deslavadamente em trechos de viradas do enredo. O uso de linguagem desse livro pode ser considerado, sem dúvida, como um dos mais elaborados e ricos da nossa língua.
No entanto, considero dificílimo aproveitar a obra sem pelo menos alguns níveis de pesquisa: 1) vocabulário, riquíssimo, com muitos termos indígenas e estrangeirismos; 2) referências históricas, diversas e espalhadas pelo texto, algumas das quais não tão evidentes para um leitor sem tanto repertório; 3) elementos folclóricos, extraídos de várias fontes e reinventados com grande liberdade e respeito (isso parece contraditório, mas não é) pela inteligência do autor.
Leva tempo e demanda esforço considerável, mas "Macunaíma" entrega o que a crítica diz que ele promete. Até mais.
Por fim: o "Roteiro de Macunaíma", de Cavacanti Proença, é um guia útil para uma iniciação ao universo do livro. Deve ser lido paralelamente aos capítulos.

domingo, 1 de abril de 2018

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo. 
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.

domingo, 25 de março de 2018

O rei da vela, de Oswald de Andrade




Não tive a oportunidade de ver uma encenação desta peça tão clássica e importante. Tive, pelo menos, o contato mínimo com o texto para reconhecer-lhe a força. E creio que boa parte de minha diversão com as sacadas de Oswald está naquilo que tenho de paulistano incrustado na personalidade.
Se alguém retirasse alguns trechos da peça e mostrasse às pessoas sem citar a fonte ou a data, muitas delas se ofenderiam ainda hoje. Essa acidez ficou preservada porque o que Oswald criticava nos idos dos anos 1930 não mudou em essência na mentalidade de grande parcela dos que se pensam "geradores de emprego" e "movimentadores da economia". É muito engraçado para mim ver os dois Abelardos discutindo sobre sangue nobre, e dizendo que São Paulo tem dez famílias, sendo o resto prole. É quase como a gente olhando a extensão das periferias e o isolamento dos bairros nobres e bunkers, e relacionando as duas coisas com alguma justificativa baseada em mérito, esforço ou diferença de aptidão. A posição de subserviência e admiração infundada em relação aos Estados Unidos também me parece muito paulista, até paulistana mesmo. Oswald era filho de uma elite  que conhecia bem a ponto de poder revirar sua sujeira sob o tapete. A verve crítica impiedosa do autor faz muita falta nos dias atuais, nos quais até os mais independentes morrem de medo de perderem o nada que nem têm. 
Mas é preciso atualizar o cenário para uma eventual remontagem, mantendo a substância do texto, que é excelente. Aguardarei, porque gosto de teatro no teatro, ainda que usufrua bem do gosto do texto no papel.