Luís Delfino tem estilo prolixo. Romântico tardio, seus poemas são longos e iterativos, explorando os temas à exaustão, explicando os mesmos sentimentos e as mesmas ideias de várias maneiras. Essa opção estética pode gerar efeito de intensidade, em virtude da insistência, mas perde em concisão e contundência dos versos. Poesia própria para a oratória e para temas narrativos, a lírica de Delfino não me comoveu nem empolgou. Reconheço, entretanto, o capricho do vocabulário e a confessionalidade emotiva dos versos. Os truncamentos das frases tiram o vigor narrativo e a força das imagens, muitas vezes, embora garantam a uniformidade dos versos. Não destaco nenhum poemas em especial.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
Fanfarras, de Teófilo Dias
Livro que é considerado o primeiro do Parnasianismo no Brasil, apresenta, como solução de recusa à espiritualidade e à fantasia características do Romantismo, uma coleção de poemas fortemente sensuais, tanto pela observação das cenas e objetos exteriores, quanto pelo erotismo carnal. Acontece que, conforme o gosto da corrente literária, esse erotismo é conservador e estetizante, jamais transborda além do impacto da eloquência. Ainda sobrevivem traços da poesia participante e declamatória. Os poemas traduzidos de Baudelaire e Hugo mostram como Teófilo Dias escolhe com menos felicidade imagens, temas e ideias, pois mesmo reelaborados em Português ainda são melhores que os do tradutor. Os poemas "Saudade", "Latet Anguis" e "A voz" parecem ser os mais interessantes em termos de construção, que é, afinal, o que interessa na estética do Parnaso. "O rio e o vento" poderia ter um final mais condizente com o bom desenvolvimento.
Estão lá a tentativa de observação objetificante, a eloquência, a sensualidade do movimento, tudo em potência. Em "Fanfarras", o Parnasianismo ainda não se fez, apenas se insinuou, procurando seu lugar.
Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos
Obra que interessa principalmente como testemunho histórico da percepção poética dos parnasianos, o tratado (designação um tanto quanto arrogante) divide-se em três partes. Na primeira, há um longo apanhado da produções poética brasileira desde a Colônia. Há referência a muitos poetas hoje completamente esquecidos, e isso pode gerar bom material de pesquisa. Na segunda parte, todas as receitas de efeitos sonoros do cabedal parnasiano estão devidamente arroladas. São tratadas as artimanhas do verso tecnicamente apurado, mas o sujeito do discurso deixa escapar, vez por outra, preferências que são só preferências, injustificáveis, indicadas como se fossem leis naturais; talvez seja essa a parte mais curiosa da leitura. Na terceira parte, são apresentadas as formas poéticas consagradas conhecidas até então, com especial atenção para o soneto, considerada a mais especial dentre todas. E é isso.
domingo, 8 de abril de 2018
Macunaíma, de Mário de Andrade
Apesar da necessidade profissional de apresentar uma abordagem mais esquemática e didatizada de "Macunaíma", tentei me conceder a possibilidade de uma aproximação um tanto quanto livre da obra-prima de Mário de Andrade. Fiz, então, uma leitura corrida, solta, menos impressionada com as referências. Não funcionou muito, na verdade. Trata-se de um texto que costura uma variedade ampla de elementos, com passagens muito ágeis em matéria de ação e grande concentração de dados na superfície da escrita. Quando a leitura é mais desprendida, acredito que o efeito imediato é dar risada, porque há pelo menos uma sacada, uma brincadeira, uma mudança de tom a cada dez ou vinte linhas.
De um ponto de vista mais avaliativos e crítico, o que considero incrível é o quanto de Brasil tem nesse livro, e como ele, que encaro como uma fantástica peça de provocação, consegue aproveitar elementos da brasilidade, até elementos estereotípicos, sem produzir, ao fim, algo que se possa chamar de estereótipo. Mesmo reforçando continuamente os caracteres de "herói sem caráter" do protagonista, Mário não narra de forma condescendente nem judiciante, e amplia a construção do personagem com qualificações díspares e oscilações de postura. No grande Carnaval de valores e disposições de espírito apresentados na obra, a organização do autor implícito revela uma disposição para o poético, o mítico e o onírico, e a liga de tudo é o tom não elevado, que remete ao humorístico e perpassa todo o texto como que brincando com as referências e informações recolhidas. Durante a leitura, é divertido perceber como a oralidade e as tradições de falas e ditos que conhecemos podem aparecer de repente e deslavadamente em trechos de viradas do enredo. O uso de linguagem desse livro pode ser considerado, sem dúvida, como um dos mais elaborados e ricos da nossa língua.
No entanto, considero dificílimo aproveitar a obra sem pelo menos alguns níveis de pesquisa: 1) vocabulário, riquíssimo, com muitos termos indígenas e estrangeirismos; 2) referências históricas, diversas e espalhadas pelo texto, algumas das quais não tão evidentes para um leitor sem tanto repertório; 3) elementos folclóricos, extraídos de várias fontes e reinventados com grande liberdade e respeito (isso parece contraditório, mas não é) pela inteligência do autor.
Leva tempo e demanda esforço considerável, mas "Macunaíma" entrega o que a crítica diz que ele promete. Até mais.
Por fim: o "Roteiro de Macunaíma", de Cavacanti Proença, é um guia útil para uma iniciação ao universo do livro. Deve ser lido paralelamente aos capítulos.
domingo, 1 de abril de 2018
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo.
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.
domingo, 25 de março de 2018
O rei da vela, de Oswald de Andrade
Não tive a oportunidade de ver uma encenação desta peça tão clássica e importante. Tive, pelo menos, o contato mínimo com o texto para reconhecer-lhe a força. E creio que boa parte de minha diversão com as sacadas de Oswald está naquilo que tenho de paulistano incrustado na personalidade.
Se alguém retirasse alguns trechos da peça e mostrasse às pessoas sem citar a fonte ou a data, muitas delas se ofenderiam ainda hoje. Essa acidez ficou preservada porque o que Oswald criticava nos idos dos anos 1930 não mudou em essência na mentalidade de grande parcela dos que se pensam "geradores de emprego" e "movimentadores da economia". É muito engraçado para mim ver os dois Abelardos discutindo sobre sangue nobre, e dizendo que São Paulo tem dez famílias, sendo o resto prole. É quase como a gente olhando a extensão das periferias e o isolamento dos bairros nobres e bunkers, e relacionando as duas coisas com alguma justificativa baseada em mérito, esforço ou diferença de aptidão. A posição de subserviência e admiração infundada em relação aos Estados Unidos também me parece muito paulista, até paulistana mesmo. Oswald era filho de uma elite que conhecia bem a ponto de poder revirar sua sujeira sob o tapete. A verve crítica impiedosa do autor faz muita falta nos dias atuais, nos quais até os mais independentes morrem de medo de perderem o nada que nem têm.
Mas é preciso atualizar o cenário para uma eventual remontagem, mantendo a substância do texto, que é excelente. Aguardarei, porque gosto de teatro no teatro, ainda que usufrua bem do gosto do texto no papel.
sábado, 17 de março de 2018
Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
A releitura deste romance, que às vezes parece uma melancólica crônica superdimensionada e aprofundada em seus temas, corrobora e amplifica a tristeza do título, a terrível sanção negativa sobre o patriotismo bem intencionado e a confiança nas instituições. O fim de Policarpo, na verdade, é apenas a confirmação de sua inadequação social durante todo o seu trajeto político e ideológico enquanto cidadão. O que Lima Barreto parece ter de mais impagável e insuperável é a capacidade de observação detalhada e precisa do Brasil da Primeira República. Vale notar que olhar do autor não se concentra apenas no que interessa imediatamente ao enredo ou à sua visão de mundo: há exploração de diversas cenas, em diversos ambientes e contextos igualmente distintos. É um olhar que aprecia com espírito de indagação a pobreza, a riqueza, os militares, as famílias, a vida das mulheres, as aspirações sociais, os imigrantes, os escravos. Por detrás dessa ampla percepção de elementos coetâneos, há um autor implicíto cético, indignado e pessimista, mas creio que não seja possível sustentar muito mais que isso e, talvez, no plano das posições políticas da época, o antiflorianismo e a decepção com as instituições da República. A amargura de Lima Barreto faz com que ele não tome partido explícito e claro das figuras injustiçadas dentro do romance, sejam elas o protagonista romântico Quaresma, as mulheres oprimidas pelo casamento de fachada, ou os escravos do sítio do Sossego. Observador arguto, ele reconhece a opressão, mas não se furta a caracterizar o oprimido de maneira, muitas vezes, negativa. A única exceção é Olga, que parece ser o ponto mental de equilíbrio e valor humano da narrativa.
Como resultado, temos o retrato duro de um período conturbado e tenso. E, de dentro desse retrato, uma reflexão humana e sofrida do conflito entre as escolhas do caráter e a violência das convenções que o corrompem.
A mão e a luva, de Machado de Assis
Talvez pese sobre esse romance de Machado a ideia um tanto ingrata de que seria incorporável ao rol do Romantismo brasileiro. Sendo Machado o maior de nossos prosadores realistas, a obra soaria como um "porém" entre suas grandes produções.
Acredito que em "A mão e a luva" devamos nos conduzir pelas próprias observações do autor sobre seu texto. Em nota introdutória, Machado chamava a atenção para a construção das personagens, em especial da personagem feminina Guiomar, e dizia que esta era a razão de ser do romance.
Uma leitura sem preconceitos e curiosa do livro aponta para méritos que ultrapassam a questão da classificação. De fato, a Guiomar de "A mão e a luva" é uma personagem bonita, cheia de artimanhas, equilibrando-se entre a postura de altivez e impassibilidade e as vulnerabilidades de um coração ambicioso e sedento de paixão. Diante disso, Luís Alves e Estêvão são tipos mais rasos, e o segundo é quase uma caricatura dos moços românticos desesperados e melodramáticos.
Entre uma e outra cena do triângulo amoroso, está presente e atento o Machado observador dos costumes, com sacadas filosóficas e chistes sobre a juventude, o amor e os valores sociais. Como a narração não se acopla em definitivo ao ponto de vista das personagens, a não ser na fala final de Luís Alves a Estêvão, o narrador parece um senhor mais velho, ajuizado e experiente, comentando as idas e vindas do jogo de seduções entre Guiomar e pretendentes.
Como leitura de apoio, recomendo o artigo de Rodrigo Silva Trindade, A figura inglesa na ordem escravocrata brasileira: um estudo sobre a personagem Mrs. Oswald em A mão e a luva, de Machado de Assis, para se compreender melhor a parte mais densa do enredo, que é a relação entre baronesa, Guiomar e a governanta. Só jogar no Google que você acha.
De resto, não subestime Machado nem nos seus livros menos badalados. Eles têm muito a dizer.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
O pai Goriot, de Balzac
Por meio dos canais de informação, recebemos, diariamente, grande quantidade de narrativas curtas e incompletas, boa parte delas versando sobre o lado escatológico e egoísta da humanidade. Ao receber essas narrativas, tendemos, pela própria necessidade de comunicação, a emitir juízos sobre as personagens envolvidas, uma vez que, se nos silenciarmos, perdemos a oportunidade de atingir bodes expiatórios coletivos e de encontrar ressonância de nossas reações primeiras/primitivas em outras almas atualizadas pelas mesmas informações. Assim, tornou-se fácil dizer que uma pessoa é um monstro ou um anjo sem jamais termos convivido com ela, sem sabermos nada de sua vida social e sem que tenhamos a menor ideia de seus sentimentos profundos e seus valores humanos.
Quando somos instruídos, por experiência, pesquisa ou sagacidade, a recebermos essas narrativas midiáticas de forma verdadeiramente crítica, estabelecendo uma suspeita prévia dos interesses de imagem construídos pelos textos verbais e visuais a que temos acesso, temos a condição de perceber que as histórias de vida exemplares (para o bem ou para o mal) que recebemos são construções discursivas competentes para fins imediatos, e não muito mais que isso. Por mais que possa ser chocante, todos os nossos ídolos estão em condições de nos decepcionar, assim como todos os nossos bandidos estão em condições de nos surpreender; não significa que isso acontecerá, mas sim que nada impede que isso aconteça. Não temos acesso à parte mais significativa da vida das pessoas, porque, justamente, as pessoas acabam se tornando personagens de narrativas curtas e rasas, meras ilustrações de vislumbres ideológicos vazios. Assim, a fatuidade de nossas avaliações sobre o caráter e os valores de quem não conhecemos senão como imagem imediata, pré-fabricada e pré-estereotipada, é inevitável. Como consequência, julgamos mal, avaliamos mal, percebemos mal, e estamos sempre perto de vilipendiar aquele que não merece, mas também não sabe se defender disso.
Pois bem. A preocupação com as aparências sociais e a ingratidão numa sociedade de miséria humana por debaixo da beleza das máscaras é uma das questões que estabelece o valor literário do tocante "O pai Goriot", de Balzac. Reputa-se o autor como notável observador do comportamento humano e dos hábitos sociais. Sim, e esse romance transpira Paris e os parisienses pós-Napoleão. Mas o que movimenta meus ânimos ao percorrer suas páginas é a sensação reforçada pelas intervenções ácidas do narrador ao comentar a hipocrisia e ingratidão das personagens: a condenação da desumanização dos indivíduos que, ao buscar a ascensão social, aceitam os encargos de sacrifício de seus valores e de sua dignidade, ou mesmo do abandono de sua dignidade enquanto valor. Ou: de como mergulhar em mundo de aparências tem como preço negar aquilo que nos construiu e capacitou para tal.
Essa inquietação em relação ao que há ou não de humano nos humanos ainda é o que me captura para essa longa, profunda, investigativa e inteligente narrativa, dessas sobre as quais vale a pena discutir.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Germinal, de Zola
De forma diferente da que ganhou corpo nos debates filosóficos atuais, sempre se constituiu, em minha cabeça de artista da palavra, o problema de falar-escrever por quem normalmente não fala-escreve. Para mim, poder versar sobre a vida das pessoas mais pobres, com menos acesso aos bens culturais considerados de prestígio e mais distanciamento dos meios universitários brasileiros - que, desde quando eu era estudante, eram amplamente dominados por elite e classe média - seria altamente honrado e esteticamente elevado. Mas não seria apenas escrever sobre isso, narrando do ponto de vista de um filho primogênito de professora primária a quem nada nunca faltou. Para que o projeto fosse bacana, haveria a necessidade de compreender, assumir e desenvolver pontos de vista relacionados a histórias de vida de pessoas a quem, muitas vezes, quase tudo faltou, inclusive a condição de uso da palavra.
Talvez isso não seja plenamente possível de nenhuma forma, porque a expressão autêntica nunca é autêntica de fato, uma vez que os indivíduos sempre estão intercambiando ideias, prescrições de gênero e expectativas de valoração do que fazem. Mas essa impossibilidade, para mim, não tiraria o valor das tentativas de aproximação das vozes dos autores com vozes outras e múltiplas, desde que o discurso incorporasse a autocrítica dos limites de apropriação.
Nunca resolvi esse dilema na prática e nem fiz nada que saciasse essa longínqua e poderosa ambição, mas reconheço em "Germinal", de Émile Zola, um esforço lídimo e teimoso de encontrar, pelo romance, vozes marginais. Vozes essas que são de greve, de revolta, de fome, de animalidade, virulência e violência, mas também (e essa é grandeza do romance) de paixões, medos, incertezas, invejas, ciúmes, veleidades, vilezas. Zola formula um universo cru e cruel, intenso, por vezes repugnante e assustador; por outro lado, oferece, em suas personagens, uma dimensão humana frágil e cambaleante, suficientemente construída para evitar que as sucessões de eventos na trama funcionem como uma comprovação de tese sobre o caráter das raças ou das classes. Parece que a solução encontrada pelo autor faz com que sua visão de mundo e sua pesquisa sobre as condições materiais da existência acabem dialogando com algo da essência do humano. Afinal, é preciso muita sensibilidade literária para saber dosar o real verdadeiro do chão de fábrica (ou de mina) e o real verossímil das letras que o traduzem.
Não sei se Zola pode legitimamente falar pelos mineiros franceses do século XIX. Sei que os que falam por ele são notáveis, e ficam na nossa memória como excelentes tipificações da miséria advinda da exploração. E isso é legítimo.
domingo, 14 de janeiro de 2018
Madame Bovary, de Gustave Flaubert
Há muitos aspectos deste romance que merecem exploração consistente, amparada por pesquisa histórica e reflexão sociológica. O impacto cultural que gerou, à época, seria por si só objeto de estudo para anos de dedicação e análise. Isso tem sido feito de há muito, e por isso vou me preocupar apenas em pensar nas questões que me surgiram e me comoveram a partir da leitura de fruição, solta e desarticulada.
A personagem Emma Bovary encanta, comove, assusta e incomoda por causa de sua verdade (ou verossimilhança, para usar um termo mais filosófico). A intensidade de Emma não tem a ver exatamente com a historicidade ou factibilidade de suas peripécias, e sim com a ideia de insatisfação. Parece-me, na essência, que essa seria uma ideia vedada às mulheres da época, pelo menos no tocante à esfera pública e social. Uma mulher tinha um papel a cumprir, e tinha de dar-se por satisfeita, ou sentir-se realizada, se conseguisse se enquadrar dentro dessa caixinha, assustadoramente restrita.
Emma permite-se romper com isso, permite-se experimentar, amar, fugir, gastar, trair, mentir, chorar, seduzir. A construção psicológica de Emma é profundamente libertadora, talvez até ultrapassando as intenções estéticas de Flaubert. Parece-me que esse anseio pela felicidade, pela satisfação, pela descoberta de sentimentos mais fortes e prazeres superiores, que particulariza Emma como provocação à história de uma sociedade que ainda não estava preparada para ela, é, ao mesmo, a peça-chave da universalidade do romance e do grau de comoção que ele é capaz de promover. A dor de Emma Bovary e a dor das pessoas que vivem vidas insípidas se entrecruzam além dos fatores particulares da trama e da ambientação. Não é difícil olhar ao nosso redor, no nosso modo de vida individualista, consumista e competitivo, e perceber que estamos o tempo todo sonhando com viradas da sorte que nos façam sentir especiais como pessoas, como figuras públicas, como amantes e amados. Fazer maratonas de séries, explodir a conta do cartão de crédito, comer até explodir, sentir prazer de confrontar e humilhar desconhecidos, esconder do conhecimento público os prazeres e as compensações que dão sentido à nossa vida, tudo isso mostra como a inconformação e a busca do direito à felicidade, mormente para as mulheres em todos os tempos, continuam representando percalços incômodos à ordem estabelecida. Em tempos de moralismo hipócrita, vale sempre revisitar a acidez do realismo.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Crime e castigo, de Dostoiévski
Tem algo em relação a Ingmar Bergman que também vale para Dostoiévski. Consiste no fato de que não consigo ver dois filmes em sequência do gênio sueco (deve haver no mínimo uma semana entre um e outro). A forma como ele trabalha com as disposições psicológicas reprimidas do indivíduo causa-me tamanho incômodo que preciso de um tempo para me reajustar e repensar as angústias que foram despertadas.
Em relação ao gênio russo, é a mesma sensação (e o mesmo período de tempo de recuperação). Termina-se de ler uma obra como Crime e Castigo e logo vem a impressão de que não é possível exprimir todo o sentimento que o livro revolve dentro do leitor. A impressão de penetração profunda no oceano do espírito humano talvez seja a mais óbvia para qualquer um de nós, e por isso deixo-a de lado. Para além disso, há a sensação de que o estilo de Dostoiévski se sustenta na capacidade de descrever tipos humanos pelo discurso que ficcionalmente proferem, e que eles se mostram mais complexos do que seria necessário para o desenvolvimento "seco" da trama. E por isso a trama necessita de encontros e desencontros, diálogos e desinteligências, e todo o tipo de estratégia de construção de personas discursivas que for possível. São essas personas, muito humanas e muito suscetíveis a tudo o que o humano é, que fazem as amarras da história, não apenas com seus interesses, mas com suas vacilações, seus sustos, seus delírios.
Dentre as muitas grandes sacadas do autor, a que mais me estremece é a da qualificação de homens ordinários e extraordinários, que está amarrada, na fala de Raskólnikov, às possibilidades morais e às perspectivas de avaliação e sanção social. Por esse mecanismo, a noção de grandeza, que pode, como sabemos, ser ideologicamente constituída por meio das premissas mais absurdas, consegue transformar-se em salvo-conduto social da barbárie e até mesmo do sadismo inconsciente individual. Completamente perturbador, porque completamente atual.
Vale reler depois de se rever Match Point, de Woody Allen.
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