terça-feira, 28 de abril de 2020

Deixem que leiam - Geneviève Patte




Tendo terminado a leitura da obra de Geneviève Patte, posso apontar algumas qualidades muito evidentes e dizer sinteticamente de que maneira o livro tocou em minha experiência de educador.
O otimismo, a intensidade, a esperança e a convicção positiva da autora em relação às experiências que relata conquistam da primeira à última página. Trata-se de um texto pulsante, cheio de vida, realmente inspirador e estimulador. Há uma forte crença na singularidade da experiência da Biblioteca Viva, nos moldes humanizados e dialógicos com os quais é concebida, e uma aposta permanente no contato das crianças com os bons livros.
Não se trata, de forma alguma, de um otimismo ingênuo ou uma fé fanatizante. Pelo contrário, o conhecimento que sustenta a argumentação da autora foi construído em suas inúmeras viagens e pesquisas em experiências de biblioteca e circulação de livros pelo mundo todo. Patte efetivamente teve contato com uma gama considerável de realidades distintas e, em cada uma dessas realidades, com esforços similares aos seus para fornecer experiências de leitura às crianças e suas famílias. E teve especial carinho e atenção com os trabalhos bem sucedidos em comunidades afastadas, carentes, depauperadas, excluídas. Embasada no que viu e viveu, a autora consegue identificar características benéficas para a divulgação de literatura de qualidade.
Além disso, Patte conhece literatura de qualidade, porque possui repertório de leitura. Nesta obra em particular, perde-se a conta de quantos livros e autores são referenciados e sugeridos. Verdade que a maior parte da bibliografia está em francês, mas isso não nos impede de pensar que qualquer ação relacionada à literatura para crianças envolve a leitura e seleção prévia do melhor material. Esse é um pressuposto que muitas vezes não se prestigia na formação do bibliotecário, e, por que não dizer, do mediador de leitura em geral. A idealizadora da Biblioteca Viva de Clamart deixa, entretanto, muito clara a sua proposta: você será capaz de estimular se, por seu lado, também estiver genuinamente estimulado pelo material que oferece.
Importante ainda ressaltar que, em "Deixem que leiam", procura-se considerar, ao lado da biblioteca, a perspectiva da vida digital de inúmeras crianças. Esse novo mundo de infinitas possibilidades de informação, segundo Patte, não excluiria a especificidade da experiência da biblioteca, porque os bibliotecários/mediadores de leitura seriam capazes de integrar as necessidades das crianças "nativas digitais" ao modo de organização e acesso desses espaços. E isso se daria exatamente pelo aspecto da intervenção adulta, humana, atenta e interessada.
A leitura desse livro trouxe várias inquietações pessoais, e uma enorme vontade de construir a experimentos de circulação de livros em alguns locais que tenho agora em mente. Essa chama que o livro voltou a acender em mim associa-se ao tempo de professor de Ensino Fundamental na Prefeitura de São Paulo, quando trabalhei como Orientador de Sala de Leitura. Muitas das percepções de Patte vão ao encontro dos meus sentimentos nas descobertas cotidianas advindas da observação do comportamento infantil. Existe um aspecto pedagógico na Sala de Leitura, que é, por princípio, uma aula dentro de um horário de aula, exigindo uma programação, alguma atividade, um plano. Mas existe sempre, dentro da Biblioteca, mesmo que seja a Biblioteca escolar e o cronograma rígido da instituição, o aspecto da transgressão, da escolha do livro que o professor não mostrou, da liberdade para fuçar, da tranquilidade para realizar a leitura pessoal e intransferível (e que muitas vezes não pode nem deve ser traduzida em atividade avaliativa). Mais do que a experiência de professor, fala em mim, talvez, a experiência de menino sonhador, que queria que o tempo parasse para poder brincar de explorar bibliotecas e estantes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Poesias completas, de Luís Delfino


Luís Delfino tem estilo prolixo. Romântico tardio, seus poemas são longos e iterativos, explorando os temas à exaustão, explicando os mesmos sentimentos e as mesmas ideias de várias maneiras. Essa opção estética pode gerar efeito de intensidade, em virtude da insistência, mas perde em concisão e contundência dos versos. Poesia própria para a oratória e para temas narrativos, a lírica de Delfino não me comoveu nem empolgou. Reconheço, entretanto, o capricho do vocabulário e a confessionalidade emotiva dos versos. Os truncamentos das frases tiram o vigor narrativo e a força das imagens, muitas vezes, embora garantam a uniformidade dos versos. Não destaco nenhum poemas em especial. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Fanfarras, de Teófilo Dias


Livro que é considerado o primeiro do Parnasianismo no Brasil, apresenta, como solução de recusa à espiritualidade e à fantasia características do Romantismo, uma coleção de poemas fortemente sensuais, tanto pela observação das cenas e objetos exteriores, quanto pelo erotismo carnal. Acontece que, conforme o gosto da corrente literária, esse erotismo é conservador e estetizante, jamais transborda além do impacto da eloquência. Ainda sobrevivem traços da poesia participante e declamatória. Os poemas traduzidos de Baudelaire e Hugo mostram como Teófilo Dias escolhe com menos felicidade imagens, temas e ideias, pois mesmo reelaborados em Português ainda são melhores que os do tradutor. Os poemas "Saudade", "Latet Anguis" e "A voz" parecem ser os mais interessantes em termos de construção, que é, afinal, o que interessa na estética do Parnaso. "O rio e o vento" poderia ter um final mais condizente com o bom desenvolvimento.
Estão lá a tentativa de observação objetificante, a eloquência, a sensualidade do movimento, tudo em potência. Em "Fanfarras", o Parnasianismo ainda não se fez, apenas se insinuou, procurando seu lugar.

Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos





Obra que interessa principalmente como testemunho histórico da percepção poética dos parnasianos, o tratado (designação um tanto quanto arrogante) divide-se em três partes. Na primeira, há um longo apanhado da produções poética brasileira desde a Colônia. Há referência a muitos poetas hoje completamente esquecidos, e isso pode gerar bom material de pesquisa. Na segunda parte, todas as receitas de efeitos sonoros do cabedal parnasiano estão devidamente arroladas. São tratadas as artimanhas do verso tecnicamente apurado, mas o sujeito do discurso deixa escapar, vez por outra, preferências que são só preferências, injustificáveis, indicadas como se fossem leis naturais; talvez seja essa a parte mais curiosa da leitura. Na terceira parte, são apresentadas as formas poéticas consagradas conhecidas até então, com especial atenção para o soneto, considerada a mais especial dentre todas. E é isso.

domingo, 8 de abril de 2018

Macunaíma, de Mário de Andrade




Apesar da necessidade profissional de apresentar uma abordagem mais esquemática e didatizada de "Macunaíma", tentei me conceder a possibilidade de uma aproximação um tanto quanto livre da obra-prima de Mário de Andrade. Fiz, então, uma leitura corrida, solta, menos impressionada com as referências. Não funcionou muito, na verdade. Trata-se de um texto que costura uma variedade ampla de elementos, com passagens muito ágeis em matéria de ação e grande concentração de dados na superfície da escrita. Quando a leitura é mais desprendida, acredito que o efeito imediato é dar risada, porque há pelo menos uma sacada, uma brincadeira, uma mudança de tom a cada dez ou vinte linhas. 
De um ponto de vista mais avaliativos e crítico, o que considero incrível é o quanto de Brasil tem nesse livro, e como ele, que encaro como uma fantástica peça de provocação, consegue aproveitar elementos da brasilidade, até elementos estereotípicos, sem produzir, ao fim, algo que se possa chamar de estereótipo. Mesmo reforçando continuamente os caracteres de "herói sem caráter" do protagonista, Mário não narra de forma condescendente nem judiciante, e amplia a construção do personagem com qualificações díspares e oscilações de postura. No grande Carnaval de valores e disposições de espírito apresentados na obra, a organização do autor implícito revela uma disposição para o poético, o mítico e o onírico, e a liga de tudo é o tom não elevado, que remete ao humorístico e perpassa todo o texto como que brincando com as referências e informações recolhidas. Durante a leitura, é divertido perceber como a oralidade e as tradições de falas e ditos que conhecemos podem aparecer de repente e deslavadamente em trechos de viradas do enredo. O uso de linguagem desse livro pode ser considerado, sem dúvida, como um dos mais elaborados e ricos da nossa língua.
No entanto, considero dificílimo aproveitar a obra sem pelo menos alguns níveis de pesquisa: 1) vocabulário, riquíssimo, com muitos termos indígenas e estrangeirismos; 2) referências históricas, diversas e espalhadas pelo texto, algumas das quais não tão evidentes para um leitor sem tanto repertório; 3) elementos folclóricos, extraídos de várias fontes e reinventados com grande liberdade e respeito (isso parece contraditório, mas não é) pela inteligência do autor.
Leva tempo e demanda esforço considerável, mas "Macunaíma" entrega o que a crítica diz que ele promete. Até mais.
Por fim: o "Roteiro de Macunaíma", de Cavacanti Proença, é um guia útil para uma iniciação ao universo do livro. Deve ser lido paralelamente aos capítulos.

domingo, 1 de abril de 2018

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




Neste romance memorialista de Machado, que muitos não consideram propriamente um romance, quatro passagens são as que mais me instigam e dão prazer (literário, bem entendido). A primeira delas é o encontro com o almocreve, no capítulo XXI, em que Brás Cubas tem a sua vida salva e a sua mesquinhez colocada à prova pela disposição de espírito. Esse talvez seja um dos mais brilhantes e universais momentos da lucidez ácida de Machado. A segunda é a despedida de Eugênia, no capítulo XXXV, cruel, covarde e mentirosa, mas completamente compatível com boa parte daquilo que as pessoas costumam chamar, por conveniência, de amor, e que nada tem a ver com altas disposições do espírito. A terceira é o delírio pré-morte e toda a viagem empreendida pelo defunto-autor na iminência de se despedir em definitivo da vida, um trecho denso, envolvendo disposições antagônicas: ironia e reflexão filosófica, curiosidade e fastio, humildade e arrogância. A quarta passagem, terrível, é o reencontro de Marcela, mais velha e consumida pelos azares da vida. A diferença de valor explicitada nessa cena, mais que a consideração do estado atual de Marcela, remete à diferença de postura necessária para lidar com a realidade de cada fase da vida. Ou, pensando por outra chave, a tendência a nos surpreendermos com a incoerência da intensidade aplicada a nossa escala de valores quando somos forçados a considerá-los no decorrer do tempo e sob a ação desse mesmo tempo. 
A figura de Prudêncio também merece um estudo particular, com contextualização histórica e remissão a outras obras de Machado que passem pelos escravos e pela escravidão. Também as posições de enunciação e suas projeções dão margem a muitas e muitas páginas de interpretação. E Virgília, enquanto motor da história, tem construção literária primorosa.
Livro imprescindível.

domingo, 25 de março de 2018

O rei da vela, de Oswald de Andrade




Não tive a oportunidade de ver uma encenação desta peça tão clássica e importante. Tive, pelo menos, o contato mínimo com o texto para reconhecer-lhe a força. E creio que boa parte de minha diversão com as sacadas de Oswald está naquilo que tenho de paulistano incrustado na personalidade.
Se alguém retirasse alguns trechos da peça e mostrasse às pessoas sem citar a fonte ou a data, muitas delas se ofenderiam ainda hoje. Essa acidez ficou preservada porque o que Oswald criticava nos idos dos anos 1930 não mudou em essência na mentalidade de grande parcela dos que se pensam "geradores de emprego" e "movimentadores da economia". É muito engraçado para mim ver os dois Abelardos discutindo sobre sangue nobre, e dizendo que São Paulo tem dez famílias, sendo o resto prole. É quase como a gente olhando a extensão das periferias e o isolamento dos bairros nobres e bunkers, e relacionando as duas coisas com alguma justificativa baseada em mérito, esforço ou diferença de aptidão. A posição de subserviência e admiração infundada em relação aos Estados Unidos também me parece muito paulista, até paulistana mesmo. Oswald era filho de uma elite  que conhecia bem a ponto de poder revirar sua sujeira sob o tapete. A verve crítica impiedosa do autor faz muita falta nos dias atuais, nos quais até os mais independentes morrem de medo de perderem o nada que nem têm. 
Mas é preciso atualizar o cenário para uma eventual remontagem, mantendo a substância do texto, que é excelente. Aguardarei, porque gosto de teatro no teatro, ainda que usufrua bem do gosto do texto no papel.

sábado, 17 de março de 2018

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto





A releitura deste romance, que às vezes parece uma melancólica crônica superdimensionada e aprofundada em seus temas, corrobora e amplifica a tristeza do título, a terrível sanção negativa sobre o patriotismo bem intencionado e a confiança nas instituições. O fim de Policarpo, na verdade, é apenas a confirmação de sua inadequação social durante todo o seu trajeto político e ideológico enquanto cidadão. O que Lima Barreto parece ter de mais impagável e insuperável é a capacidade de observação detalhada e precisa do Brasil da Primeira República. Vale notar que olhar do autor não se concentra apenas no que interessa imediatamente ao enredo ou à sua visão de mundo: há exploração de diversas cenas, em diversos ambientes e contextos  igualmente distintos. É um olhar que aprecia com espírito de indagação a pobreza, a riqueza, os militares, as famílias, a vida das mulheres, as aspirações sociais, os imigrantes, os escravos. Por detrás dessa ampla percepção de elementos coetâneos, há um autor implicíto cético, indignado e pessimista, mas creio que não seja possível sustentar muito mais que isso e, talvez, no plano das posições políticas da época, o antiflorianismo e a decepção com as instituições da República. A amargura de Lima Barreto faz com que ele não tome partido explícito e claro das figuras injustiçadas dentro do romance, sejam elas o protagonista romântico Quaresma, as mulheres oprimidas pelo casamento de fachada, ou os escravos do sítio do Sossego. Observador arguto, ele reconhece a opressão, mas não se furta a caracterizar o oprimido de maneira, muitas vezes, negativa. A única exceção é Olga, que parece ser o ponto mental de equilíbrio e valor humano da narrativa.
Como resultado, temos o retrato duro de um período conturbado e tenso. E, de dentro desse retrato, uma reflexão humana e sofrida do conflito entre as escolhas do caráter e a violência das convenções que o corrompem.

A mão e a luva, de Machado de Assis




Talvez pese sobre esse romance de Machado a ideia um tanto ingrata de que seria incorporável ao rol do Romantismo brasileiro. Sendo Machado o maior de nossos prosadores realistas, a obra soaria como um "porém" entre suas grandes produções.
Acredito que em "A mão e a luva" devamos nos conduzir pelas próprias observações do autor sobre seu texto. Em nota introdutória, Machado chamava a atenção para a construção das personagens, em especial da personagem feminina Guiomar, e dizia que esta era a razão de ser do romance.
Uma leitura sem preconceitos e curiosa do livro aponta para méritos que ultrapassam a questão da classificação. De fato, a Guiomar de "A mão e a luva" é uma personagem bonita, cheia de artimanhas,   equilibrando-se entre a postura de altivez e impassibilidade e as vulnerabilidades de um coração ambicioso e sedento de paixão. Diante disso, Luís Alves e Estêvão são tipos mais rasos, e o segundo é quase uma caricatura dos moços românticos desesperados e melodramáticos. 
Entre uma e outra cena do triângulo amoroso, está presente e atento o Machado observador dos costumes, com sacadas filosóficas e chistes sobre a juventude, o amor e os valores sociais. Como a narração não se acopla em definitivo ao ponto de vista das personagens, a não ser na fala final de Luís Alves a Estêvão, o narrador parece um senhor mais velho, ajuizado e experiente, comentando as idas e vindas do jogo de seduções entre Guiomar e pretendentes.
Como leitura de apoio, recomendo o artigo de Rodrigo Silva Trindade, A figura inglesa na ordem escravocrata brasileira: um estudo sobre a personagem Mrs. Oswald em A mão e a luva, de Machado de Assis, para se compreender melhor a parte mais densa do enredo, que é a relação entre baronesa, Guiomar e a governanta. Só jogar no Google que você acha.
De resto, não subestime Machado nem nos seus livros menos badalados. Eles têm muito a dizer.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O pai Goriot, de Balzac




Por meio dos canais de informação, recebemos, diariamente, grande quantidade de narrativas curtas e incompletas, boa parte delas versando sobre o lado escatológico e egoísta da humanidade. Ao receber essas narrativas, tendemos, pela própria necessidade de comunicação, a emitir juízos sobre as personagens envolvidas, uma vez que, se nos silenciarmos, perdemos a oportunidade de atingir bodes expiatórios coletivos e de encontrar ressonância de nossas reações primeiras/primitivas em outras almas atualizadas pelas mesmas informações. Assim, tornou-se fácil dizer que uma pessoa é um monstro ou um anjo sem jamais termos convivido com ela, sem sabermos nada de sua vida social e sem que tenhamos a menor ideia de seus sentimentos profundos e seus valores humanos.
Quando somos instruídos, por experiência, pesquisa ou sagacidade, a recebermos essas narrativas midiáticas de forma verdadeiramente crítica, estabelecendo uma suspeita prévia dos interesses de imagem construídos pelos textos verbais e visuais a que temos acesso, temos a condição de perceber que as histórias de vida exemplares (para o bem ou para o mal) que recebemos são construções discursivas competentes para fins imediatos, e não muito mais que isso. Por mais que possa ser chocante, todos os nossos ídolos estão em condições de nos decepcionar, assim como todos os nossos bandidos estão em condições de nos surpreender; não significa que isso acontecerá, mas sim que nada impede que isso aconteça. Não temos acesso à parte mais significativa da vida das pessoas, porque, justamente, as pessoas acabam se tornando personagens de narrativas curtas e rasas, meras ilustrações de vislumbres ideológicos vazios. Assim, a fatuidade de nossas avaliações sobre o caráter e os valores de quem não conhecemos senão como imagem imediata, pré-fabricada e pré-estereotipada, é inevitável. Como consequência, julgamos mal, avaliamos mal, percebemos mal, e estamos sempre perto de vilipendiar aquele que não merece, mas também não sabe se defender disso.
Pois bem. A preocupação com as aparências sociais e a ingratidão numa sociedade de miséria humana por debaixo da beleza das máscaras é uma das questões que estabelece o valor literário do tocante "O pai Goriot", de Balzac. Reputa-se o autor como notável observador do comportamento humano e dos hábitos sociais. Sim, e esse romance transpira Paris e os parisienses pós-Napoleão. Mas o que movimenta meus ânimos ao percorrer suas páginas é a sensação reforçada pelas intervenções ácidas do narrador ao comentar a hipocrisia e ingratidão das personagens: a condenação  da desumanização dos indivíduos que, ao buscar a ascensão social, aceitam os encargos de sacrifício de seus valores e de sua dignidade, ou mesmo do abandono de sua dignidade enquanto valor. Ou: de como mergulhar em mundo de aparências tem como preço negar aquilo que nos construiu e capacitou para tal.
Essa inquietação em relação ao que há ou não de humano nos humanos ainda é o que me captura para essa longa, profunda, investigativa e inteligente narrativa, dessas sobre as quais vale a pena discutir.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Germinal, de Zola





De forma diferente da que ganhou corpo nos debates filosóficos atuais, sempre se constituiu, em minha cabeça de artista da palavra, o problema de falar-escrever por quem normalmente não fala-escreve. Para mim, poder versar sobre a vida das pessoas mais pobres, com menos acesso aos bens culturais considerados de prestígio e mais distanciamento dos meios universitários brasileiros - que, desde quando eu era estudante, eram amplamente dominados por elite e classe média - seria altamente honrado e esteticamente elevado. Mas não seria apenas escrever sobre isso, narrando do ponto de vista de um filho primogênito de professora primária a quem nada nunca faltou. Para que o projeto fosse bacana, haveria a necessidade de compreender, assumir e desenvolver pontos de vista relacionados a histórias de vida de pessoas a quem, muitas vezes, quase tudo faltou, inclusive a condição de uso da palavra. 
Talvez isso não seja plenamente possível de nenhuma forma, porque a expressão autêntica nunca é autêntica de fato, uma vez que os indivíduos sempre estão intercambiando ideias, prescrições de gênero e expectativas de valoração do que fazem. Mas essa impossibilidade, para mim, não tiraria o valor das tentativas de aproximação das vozes dos autores com vozes outras e múltiplas, desde que o discurso incorporasse a autocrítica dos limites de apropriação.
Nunca resolvi esse dilema na prática e nem fiz nada que saciasse essa longínqua e poderosa ambição, mas reconheço em "Germinal", de Émile Zola, um esforço lídimo e teimoso de encontrar, pelo romance, vozes marginais. Vozes essas que são de greve, de revolta, de fome, de animalidade, virulência e violência, mas também (e essa é grandeza do romance) de paixões, medos, incertezas, invejas, ciúmes, veleidades, vilezas. Zola formula um universo cru e cruel, intenso, por vezes repugnante e assustador; por outro lado, oferece, em suas personagens, uma dimensão humana frágil e cambaleante, suficientemente construída para evitar que as sucessões de eventos na trama funcionem como uma comprovação de tese sobre o caráter das raças ou das classes. Parece que a solução encontrada pelo autor faz com que sua visão de mundo e sua pesquisa sobre as condições materiais da existência acabem dialogando com algo da essência do humano. Afinal, é preciso muita sensibilidade literária para saber dosar o real verdadeiro do chão de fábrica (ou de mina) e o real verossímil das letras que o traduzem. 
Não sei se Zola pode legitimamente falar pelos mineiros franceses do século XIX. Sei que os que falam por ele são notáveis, e ficam na nossa memória como excelentes tipificações da miséria advinda da exploração. E isso é legítimo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Madame Bovary, de Gustave Flaubert



Há muitos aspectos deste romance que merecem exploração consistente, amparada por pesquisa histórica e reflexão sociológica. O impacto cultural que gerou, à época, seria por si só objeto de estudo para anos de dedicação e análise. Isso tem sido feito de há muito, e por isso vou me preocupar apenas em pensar nas questões que me surgiram e me comoveram a partir da leitura de fruição, solta e desarticulada. 
A personagem Emma Bovary encanta, comove, assusta e incomoda por causa de sua verdade (ou verossimilhança, para usar um termo mais filosófico). A intensidade de Emma não tem a ver exatamente com a historicidade ou factibilidade de suas peripécias, e sim com a ideia de insatisfação. Parece-me, na essência, que essa seria uma ideia vedada às mulheres da época, pelo menos no tocante à esfera pública e social. Uma mulher tinha um papel a cumprir, e tinha de dar-se por satisfeita, ou sentir-se realizada, se conseguisse se enquadrar dentro dessa caixinha, assustadoramente restrita. 
Emma permite-se romper com isso, permite-se experimentar, amar, fugir, gastar, trair, mentir, chorar, seduzir. A construção psicológica de Emma é profundamente libertadora, talvez até ultrapassando as  intenções estéticas de Flaubert. Parece-me que esse anseio pela felicidade, pela satisfação, pela descoberta de sentimentos mais fortes e prazeres superiores, que particulariza Emma como provocação à história de uma sociedade que ainda não estava preparada para ela, é, ao mesmo, a peça-chave da universalidade do romance e do grau de comoção que ele é capaz de promover. A dor de Emma Bovary e a dor das pessoas que vivem vidas insípidas se entrecruzam além dos fatores particulares da trama e da ambientação. Não é difícil olhar ao nosso redor, no nosso modo de vida individualista, consumista e competitivo, e perceber que estamos o tempo todo sonhando com viradas da sorte que nos façam sentir especiais como pessoas, como figuras públicas, como amantes e amados. Fazer maratonas de séries, explodir a conta do cartão de crédito, comer até explodir, sentir prazer de confrontar e humilhar desconhecidos, esconder do conhecimento público os prazeres e as compensações que dão sentido à nossa vida, tudo isso mostra como a inconformação e a busca do direito à felicidade, mormente para as mulheres em todos os tempos, continuam representando percalços incômodos à ordem estabelecida. Em tempos de moralismo hipócrita, vale sempre revisitar a acidez do realismo.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crime e castigo, de Dostoiévski




Tem algo em relação a Ingmar Bergman que também vale para Dostoiévski. Consiste no fato de que não consigo ver dois filmes em sequência do gênio sueco (deve haver no mínimo uma semana entre um e outro). A forma como ele trabalha com as disposições psicológicas reprimidas do indivíduo causa-me tamanho incômodo que preciso de um tempo para me reajustar e repensar as angústias que  foram despertadas. 
Em relação ao gênio russo, é a mesma sensação (e o mesmo período de tempo de recuperação). Termina-se de ler uma obra como Crime e Castigo e logo vem a impressão de que não é possível exprimir todo o sentimento que o livro revolve dentro do leitor. A impressão de penetração profunda no oceano do espírito humano talvez seja a mais óbvia para qualquer um de nós, e por isso deixo-a de lado. Para além disso, há a sensação de que o estilo de Dostoiévski se sustenta na capacidade de descrever tipos humanos pelo discurso que ficcionalmente proferem, e que eles se mostram mais complexos do que seria necessário para o desenvolvimento "seco" da trama. E por isso a trama necessita de encontros e desencontros, diálogos e desinteligências, e todo o tipo de estratégia de construção de personas discursivas que for possível. São essas personas, muito humanas e muito suscetíveis a tudo o que o humano é, que fazem as amarras da história, não apenas com seus interesses, mas com suas vacilações, seus sustos, seus delírios.
Dentre as muitas grandes sacadas do autor, a que mais me estremece é a da qualificação de homens ordinários e extraordinários, que está amarrada, na fala de Raskólnikov, às possibilidades morais e às perspectivas de avaliação e sanção social. Por esse mecanismo, a noção de grandeza, que pode, como sabemos, ser ideologicamente constituída por meio das premissas mais absurdas, consegue transformar-se em salvo-conduto social da barbárie e até mesmo do sadismo inconsciente individual. Completamente perturbador, porque completamente atual.
Vale reler depois de se rever Match Point, de Woody Allen.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Leitura Literária na Escola, organizado por Renata Junqueira de Souza e Berta Lúcia Tagliari Feba





Editado pelo Mercado das Letras, o livro "Leitura Literária na Escola" é uma compilação de contribuições de vários autores sobre possibilidades de exploração de material literário em sala de aula. A concepção sobre a especificidade do literário é abrangente, permitindo a inclusão de obras ilustradas, ou graficamente fundamentadas em seu texto, ou mesmo de adaptações de obras clássicas. A esse ponto positivo, alia-se a opção por priorizar, em cada capítulo, um tipo específico de material, ora pelo gênero (fábulas, contos de fadas), ora pela extensão (narrativas curtas), ora pela linguagem (quadrinhos). Essa variedade proporciona textos sobre temas pouco explorados, como os livros de imagens e os livros-brinquedo. 
Voltada para o professor de educação infantil e fundamental, e uniformizada pela presença, em todos os capítulos, de pelo menos um plano de aulas ou sequência didática, a obra coletiva indica perspectivas múltiplas e plurais de abordagem do material literário em aulas de Português. É possível perceber, dentro desse objetivo geral, que as atividades propostas tem embasamento didático-pedagógico semelhante, e que guardam diversos traços pedagógicos comuns, como a importância da pré-leitura e dos momentos de debate coletivo sobre o texto. Houve, adicionalmente, preocupação em dialogar com as recomendações governamentais sobre o tema e as legislações a ele pertinentes, que orientam (ou intentam orientar) os trabalhos dos professores no cotidiano das instituições. 
A uniformidade pedagógica das propostas de atividade é um aspecto interessante nesse livro. Remete à ideia de que seja possível, no limite, aplicar metodologia similar adequada a diversas manifestações distintas do literário, independente do conteúdo da obra, do seu formato, do enraizamento cultural-histórico e das especificidades dos gêneros e suportes estudados. Outras investigações, partindo dessa premissa inferida, podem, futuramente, considerando a similaridade das intervenções (calcada em um conhecimento pedagógico comum), estudar as diferenças oriundas das particularidades de cada material (perguntar, por exemplo, como uma etapa de visualização e inferência pode suscitar orientações específicas em um romance, em um conto de fadas ou em um poema de cordel). Encaminhar as reflexões para o aproveitamento das propriedades literárias das obras é um objetivo citado em muitos capítulos do livro, e poderia ser mais explorado em trabalhos posteriores. Implicaria questionar sobre o que há, por exemplo, na fábula, que pode ser aproveitado na mediação didática para apresentá-la de maneira mais próxima de sua função literária e estética, ou seja, que possa valorizá-la enquanto fábula. Talvez isso equivalha a pensar menos como um professor de Português e mais como um professor de Artes, mas não deixa de ser um desafio instigante, dado que o desinteresse por livros é problema tão grave para nossa educação quanto a defasagem no domínio das estruturas da língua.

sábado, 17 de junho de 2017

Como treinar seu o dragão, de Cressida Cowell





Como treinar o seu dragão
Cressida Cowell (também ilustrações)
Tradução de Heloisa Prieto
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

O livro de Cressida Cowell possui características metalinguísticas interessantes, dispostas de maneira a valorizá-lo e a valorizar hábitos e modos de leitura. Essas características são possíveis porque o enredo, as ilustrações e a disposição gráfica dos elementos dialogam entre si, criando um sentido para o livro enquanto livro, mais que para a história enquanto parte do livro.
Em meio à batalha de Soluço para conseguir status dentro do universo viking, há a necessidade de consulta a bibliografia especializada sobre domesticação de dragões. A narrativa faz, então, referência a um livro, mas sem descrevê-lo. A capa, contracapa, a ficha de empréstimo na biblioteca, o conteúdo e a quarta capa do livro ficcional são apresentados como símiles nas páginas do livro real. Esse recurso traz para o enredo o próprio encanto do contato físico com a obra e da busca de informação e entretenimento inerente a esse contato. Essa é uma sacada realmente valiosa para obras de literatura juvenil, e é reforçada por outros momentos em que referências a práticas escritas aproveitam-se da situação intermediária entre ilustração e texto: o livro traz ainda boxes explicativos, anotações de cadernetas e até uma carta mal-educada, mas construída dentro das convenções do gênero; tudo isso é apresentado como cópia da estrutura material do portador de texto.
Outros aspectos que tornam a obra de Cowell agradável para as gerações mais novas são o manejo das fontes gráficas e as escolhas de comparativos para as descrições realizadas. No primeiro caso, é interessante notar que há farta presença de grafia em maiúsculas, em grande parte para distinguir trechos falados de gritados, sedimentando a demarcação da oralidade em uso e reforçando aspectos oratórios importantes para o enredo. Também deve ser notada a diferenciação gráfica (apenas gráfica) entre a língua da narração e a língua dos dragões. No segundo caso, nota-se um esforço de trazer para a obra ficcionalmente escrita em período viking referências atuais e próximas do leitor, de maneira a proceder a identificação, e sem grande preocupação com a verossimilhança da pseudoautoria, já em si uma brincadeira da própria autora. É o que acontece, por exemplo, quando a palavra nerd descreve alguns dos meninos vikings mais introspectivos e estudiosos.
Essas propriedades da obra podem não ser a razão de seu sucesso comercial, mas agregam valor ao livro, mais que à narrativa, como experiência interessante do ponto de vista editorial. O enredo, em si, é bem próximo dos topos do gênero, mas o tratamento simpático, alegre, divertido e espertamente autoirônico garante o prazer da leitura para a garotada.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry




Lamento ter de revelar que até os meus 43 anos de idade ainda não havia lido esse livro belo e precioso. Mas admito que foi bom fazer isso já mais maduro, porque acredito que esse é um daqueles livros infantis que não são exatamente infantis. A sensibilidade mostrada pelo autor passa por uma maturação de sentimentos e experiências, por um sentido de vida e de descoberta que nós só conseguimos vislumbrar ou pensar sobre ele quando nos deixou de ser natural. 
Não há nada na história que justifique o encadeamento lógico da partes, a não ser a fina percepção poética de Exupéry e sua doçura de redação. Se fizéssemos uma síntese narrativa do texto, perderíamos exatamente tudo. A força e a beleza estão no encadeamento de cada frase, na surpresa das reações, nas excelentes metáforas e comparações. Talvez se possa pensar em um conjunto de parábolas sobre o comportamento adulto, mas essa também seria uma redução injusta. O acendedor de lampião, por exemplo, não é uma parábola sobre o cumprimento de regulamentos. Ele é uma sátira explícita dos exageros desse modo de agir. O desenho da jiboia engolindo um elefantes não é uma metáfora da percepção diferenciada da criança; ele é praticamente um exemplo disso.
Eu tenho medo de ler a parte da raposa e desabar nas lágrimas. É uma das passagens mais edificantes que já conheci, e a melhor forma de se dizer o que é alguém que se importa.
Esse é um daqueles livros que reforça a ideia de que o texto literário não é passível de simplificações. Você precisa beber da poesia da escrita para entender o sabor da mensagem.
Lindo e tocante.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mente e cérebro - Emoções: Alegria, de Daniel Kupermann e Ramon Souza




Interessante introdução ao tema, servindo também como introdução à coleção que trata das emoções humanas. Os autores apresentam a alegria como um sentimento a ser reprimido dentro da lógica do trabalho, da racionalidade e do esforço intelectual, mas ao mesmo tempo como a grande força propulsora das ações humanas. Há referências a Freud, Lacan, Nietszche, e interpretações muito interessantes da fábula da cigarra e da formiga. Particularmente, gostei dos trechos que fazem referência às crianças e à capacidade que têm de satisfações espontâneas e efêmeras. A parte final me fez pensar que, se a alegria se opõe ao medo, como o livro preconiza, o maior impedimento à alegria também é o maior impedimento à tristeza, que é a restrição ao prazer espontâneo pela sensação de perda do controle (o medo, justamente), e aqui estou considerando que a tristeza não é necessariamente um desprazer, vide a predileção de muitas pessoas por eventos artísticos dramáticos, sentimentais, tristes etc.
O melhor trecho do livro, para mim, é aquele que nos diz, sobre a alegria, que 

a cultura ocidental restringiu muito seu alcance. Desde o advento da modernidade, se não antes, a alegria passou a ser vista com grande suspeição. Em nome da sensatez ditada pela adoção da Razão e de seus produtos maiores - a ciência, a tecnologia, o trabalho e evidentemente o lucro que os acompanha - como bússolas norteadoras das ações humanas, passou-se a olhar com reserva a desmesura e o poder inebriante desta que é a mais contagiante das emoções. Como se a alegria devesse ser tanto mais temida quanto mais afasta o homem da retidão controlada e do cálculo que, por meio do adiamento das satisfações do corpo e da alma, promete recompensas futuras. Com o agravante de que a sua irresistível propagação pode adquirir proporções inimagináveis.

A leitura desse trecho por um artista merece, no mínimo, um largo sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estimar canções - Luiz Tatit




Passados já agora mais de 15 meses de minha defesa de doutorado, comprei este livro do meu orientador, o professor Luiz Tatit, maior semioticista da canção no país. A experiência de leitura foi surpreendente. Embora os textos de semiótica sejam complicados para a leitura do público em geral e muitas vezes exigentes com os próprios estudantes da área, posso atestar que li o livro todo em dois dias, de uma vez, sem grandes problemas. É verdade que muitas das questões que ficaram pendentes das discussões da minha defesa foram aclaradas nessa obra, com explicações eficazes e exemplos precisos. Mas também é verdade que as ideias centrais da pesquisa do Tatit estão organizadas de forma muito clara nesse livro, o que fez com que a leitura fluísse mesmo nos pontos não tão imediatamente ligados à minha pesquisa.
A ideia de estimar canções, com os dois significados do verbo, é simplesmente brilhante. Não creio que nenhum estudioso da semiótica da canção pense em criar uma forma puramente científica de avaliar o material dessa linguagem. Por outro lado, todos os semioticistas da canção têm interesse em saber como as emoções que tornam as canções tão lindas são produzidas com a dosagem dos recursos oferecidos pela música, pela palavra e pela voz. O título do livro foi muito bem sacado.
Alguns dos capítulos reorganizam ideias que apareceram em artigos do Tatit que eu já havia lido. Mas a unidade do livro transformou minha percepções iniciais dessas ideias e elucidou várias questões que ainda me incomodavam. Creio que o modelo tensivo de maximização, minimização, recrudescimento e atenuação encaixou muito bem com os modos de compatibilidade melodia/letra. A questão da figurativização, que defendi na minha tese como aspecto central e basilar da produção de Adoniran Barbosa, foi retomada de forma muito mais clara, principalmente no último capítulo, despertando em mim uma tremenda vontade de voltar no tempo e reescrever a parte introdutória de meu texto. Vi também que, se nas obras anteriores Tatit centrou seus esforços de análise em canções nacionais, neste livro apareceram trechos de canções dos Beatles, dando a entender que as conquistas teóricas relacionadas às canções brasileiras podem ser estendidas à produção cancional midiática de boa parte do mundo, coisa que sempre pensei, mas que não tinha convicção intelectual de afirmar.
Mas o mais interessante de "Estimar canções", para além de todos esses méritos teóricos que apontei, é ser um livro leve, acessível, perfeitamente inteligível para os que não têm conhecimento aprofundado de semiótica. Parece-me até mais leve que "Elos de melodia e letra", que até então seria, em minha opinião, a obra referencial para uma primeira aproximação do tema.
A leitura de "Estimar canções" significou muito para mim, por meu interesse em semiótica, mas creio que possa interessar da mesma forma a qualquer amante ou estudioso da canção.
Muito bom.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Semiótica Visual - Antonio Vicente Pietroforte



Excelente obra sobre as aplicações da semiótica greimasiana em textos visuais. Desde o início de meus estudos nessa área, sempre tive dificuldades para compreender como seria possível desenvolver as noções gerativas, principalmente as de narratividade, no contexto de fotografias, quadros e obras arquitetônicas. Pietroforte oferece soluções brilhantes, sempre fiéis à linha teórica da semiótica francesa. Particularmente interessantes são suas análises da poesia concreta, mesclando o texto linguístico e o visual, e da história em quadrinhos. A partir do livro, também consegui delimitar e compreender melhor minhas sensações quando visito o prédio da FAU-USP. Imprescindível para quem quer discutir textos visuais.

PIETROFORTE, A. V. Semiótica visual: os percursos do olhar. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2012.

sábado, 24 de maio de 2014

Blues - Coleção Para Saber Mais - Helton Ribeiro



Uma das coisas mais interessantes sobre esta introdução ao blues, muito bem redigida e muito instrutiva, é que ela está repleta de indicações para audição. Assim, com as facilidades da internet, como os programas de troca de arquivos e de compartilhamento de áudio e vídeo, torna-se possível completar cada um dos capítulos lidos com informações visuais e sonoras imprescindíveis para a fruição do gênero. De nada adianta ler sobre blues sem senti-lo, ouvi-lo e experimentá-lo. Helton Ribeiro demonstra ter plena consciência disso, e sua obra é um convite para essa experiência.